Chegamos aqui em São Paulo em 1976. E meu tratamento se iniciou o quanto antes.Como medida preventiva, meus pais deixaram minhas irmãs com a minha avó em Valença, enquanto passávamos uma estadia aqui em São Paulo na casa dos meus tios.
Meus pais ainda acreditavam que meu tratamento duraria, no máximo, um ano. Estaríamos em casa antes mesmo do previsto. O que ninguém sabia na época é que São Paulo se tornaria nossa casa.
Passei pela primeira cirurgia de correção com 4 anos de idade. Parte da minha recuperação se deu no hospital e a outra, na casa dos meus tios. Não tenho uma lembrança muito clara daquele tempo. Dizem que quando passamos por algum tipo de trauma muito jovens, nosso cérebro trata de apagar parte da informação com o passar do tempo. Acho que foi bem isso que aconteceu.
Minha mãe me conta que naquela época, as noites se resumiam em ela acordando com meu choro, por causa da dor que eu sentia. Ela me medicava, a dor passava e eu voltava a dormir pra acordar algumas horas depois, em virtude do remédio que havia perdido o efeito. Minha mãe levantava, me dava dipirona outra vez e assim ia o ciclo se repetindo noite afora.
O baque maior ainda estava por vir: logo após a minha primeira cirurgia, veio a notícia que essa rotina se repetiria por mais 11 vezes, seguidas de intensas sessões de fisioterapia. O sonho de voltar à nossa terra natal se tornou cada vez mais distante.
Meus pais tomaram as providências pra arrumar uma casa pra nós aqui. Afinal, era necessário trazer o restante da família pra cá. Eles arrumaram um pequeno apartamento de apenas um quarto. Desempregado na época, foi o melhor que meu pai pôde arranjar.
Minhas irmãs vieram pra cá no mesmo ano, junto com minha tia Helena, irmã do meu pai, pois sendo todas menores de idade, elas não poderiam viajar sozinhas.
Nosso primeiro ano aqui em São Paulo começou nos desafiando pelo clima: saímos de uma região onde as pessoas usam blusa de manga comprida aos 25 graus de temperatura, pra uma cidade cujo inverno batia os 10 graus. Foi nessa época que me surgiu o fantasma que tive que combater minha vida toda: a asma. Inclusive, um dos momentos mais críticos na minha vida foi quando tive uma crise de asma enquanto me recuperava de uma cirurgia. Como vaso ruim nunca quebra, ainda estou aqui
No centro de reabilitação onde me tratava, logo cuidaram de me colocar na escola que funcionava lá. Foi onde fiz do pré-primário até a quarta série.
Frequentar uma escola dentro de um centro de reabilitação, não tem muita diferença de outra escola qualquer. A não ser pelo fato que durante o dia, alguém vem te buscar na sala de aula pra te levar às sessões de fisioterapia e terapia ocupacional, pra depois te devolver pra professora.
Foi nessa escola que tive contato com outras crianças com históricos semelhantes ao meu. Cada um à sua maneira. Éramos muito unidos, pois sabíamos, desde muito novos, dos desafios que nos eram impostos. Nos respeitávamos muito uns aos outros. Foi um período muito gostoso da minha vida. Éramos umas pragas como qualquer criança, dávamos um trabalhão pros funcionários e voluntários do centro de reabilitação. Mas sempre unidos.
O tempo foi passando. Meu pai arrumou um emprego no Rio de Janeiro que permitiu que alugássemos uma casa maior pra nossa família. Lembro de ver meu pai só aos fins de semana, mas logo ele conseguiu emprego por aqui.
Já minha mãe, o que posso dizer? Todas as vezes que eu voltava do efeito da anestesia, seu rosto era sempre a primeira coisa que eu via.
Me lembro numa ocasião que fiquei internado num hospital que não tinha leito pro acompanhante. O resultado foi minha mãe dormindo numa cadeira de balanço, feita de madeira, que ela deixou ao lado da minha cama. Era uma situação tão desconfortável, que minha irmã Dagmar revezava as noites com a Dona Lourdes pra não ficar puxado demais pras duas. Se eu não estou enganado, essa situação se seguiu durante uma semana.
Foram tempos difíceis, mas necessários. Afinal de contas, fortalezas são construídas com cimento e rochas pesadas, jamais com areia fina.
Entrava ano, saía ano. Vieram duas, três, cinco, nove cirurgias. Cada uma fazia repetir o ciclo que citei no início, mas com certos agravantes: enxertos que não cicatrizavam, infecção hospitalar (por causa de uma dessas, quase dancei feio) e um momentâneo estado de coma. Era como se Deus me chamasse, mas teimoso do jeito que sou, fazia birra: "Nem vem, pode me levar de volta que minha mãe tá me esperando. E ela me mata se eu atrasar!". ´
Vieram as últimas cirurgias. Terminei o ciclo aos 13 anos de idade. Ufa... que alívio!! Parecia algo que jamais terminaria, mas é como costumo a dizer: momentos difíceis servem apenas pra serem superados. Por isso eu digo que hoje, posso tudo. A parte pior já foi e ficou bem distante no tempo.
Ao receber alta da minha última cirurgia, eu fui fazer a então quinta série do primeiro grau num colégio comum. A escola do centro de heabilitação só me garantiria até o primário.
Eu me sentia muito preparado pra tal mudança na minha vida. No decorrer da minha reabilitação, usei prótese superior e inferior. Os braços mecânicos, eu acabei não me adaptando bem. Optei por me virar do meu jeito, criando algumas adaptações caseiras que me supriram as necessidades melhor que próteses superiores.
A grande surpresa veio com a perna mecânica. Minha adaptação foi completa com ela, tanto que comecei andando com muletas. Porém, as cirurgias e fisioterapia que fiz no decorrer da vida, me permitiram aprender a usar a prótese inferior sem precisar delas. Isso pra mim foi crucial, por me permitir uma liberdade maior de movimentos. Já não havia mais nenhuma cirurgia a ser feita, estava pronto pro que desse e viesse.
Nessa época, minha família também começou a crescer. Minhas irmãs casaram e tiveram minhas sobrinhas lindas: Camila, Elisa e por último, a Júlia.
Camila, pra quem não sabe, foi a idealizadora do tão famoso apelido Dudé.
Como todo Eduardo que se preza, eu era chamado de Duda, ou Edu, pela minha família e amigos. Quando a Camila completou um aninho de idade, naquele linguajar de bebê que é simplemente delicioso de se ouvir, ela me chamou de Dudé na frente de umas 30 pessoas que estavam na porta do prédio onde moro até hoje. No dia seguinte, a galera do condomínio tratou de oficializar a marca registrada que me acompanha até então.
Fui fazer a quinta série na primeira escola comum. A primeira de muitas, infelizmente. O problema foi que eu conseguia me adaptar bem à escola, mas a escola é que teimava em querer me enxergar do forma diferente.
As perseguições eram frequentes. E não falo só dos alunos. Existiam os pais dos alunos, indignados com o fato dos filhos deles dividirem a mesma sala de aula com um menino "doente". Havia também os professores que pareciam ter a missão de me mostrar que eu não era bem-vindo naquele lugar.
Muitas vezes, reclamar com a diretoria ajudava a piorar mais ainda a situação. Ou faziam de conta que nada acontecia, ou usavam minhas reclamações pra justificar que eu não tinha condições de estudar naquele colégio.
Meus pais, na época com condições financeiras um pouco melhores, acharam que isso era problema de colégio público. Então, me colocaram num colégio particular, administrado por freiras. Nossa, foi bem pior!
Eu nunca havia passado por um lugar onde a segregação fosse tão explícita. No colégio estadual, eles tentavam esconder um pouquinho, pelo menos.
Só pra se ter idéia, na hora do recreio, as freiras faziam questão que eu ficasse num canto do pátio, com o pretexto de me proteger, pra que nenhum outro garoto me "derrubasse" no chão com uma trombada (pátio de colégio, em hora de recreio, é sempre caótico). Só que nesse mesmo canto onde eu ficava, também eram separados o único aluno negro do colégio e uma outra menina que suspeitava-se ser lésbica. Tudo com a complascência da diretoria.
Comecei nessa época, a criar um certo senso de sobrevivência. Quem quisesse me atingir, que fizesse bem feito, pois o troco viria de forma implacável. Eu também não tinha vontade nenhuma de me sujeitar a um julgamento feito por gente ignorante, que não fazia a menor ideia do que diziam. As brigas eram constantes e as suspensões, também. Minhas suspensões!!
Numa ocasião, um grupo de meninos zombou da minha deficiência e fui pra cima deles. O problema é que estavam em cinco. Fui jogado no chão e chutado na frente de todos. Os moleques só pararam porque a mãe de um aluno interveio a meu favor. Quando levantei, todo sujo e machucado, agarrei um cabo de vassoura que estava no meio de um montante de lixo que se encontrava na calçada, passando meu braço em volta dele e pressionando-o contra o meu corpo. Consegui usá-lo como porrete, acertando as costas e o pescoço de um dos moleques que havia me agredido.
Deixei o garoto na porta do colégio com o pescoço sangrando. Peguei meu material escolar, o resto do meu orgulho e voltei pra casa.
No outro dia, quando minha mãe foi até a diretoria pra exigir esclarecimentos, tudo que faziam questão de ressaltar era a paulada que eu havia acertado nas costas do garoto. Chegaram a alegar que meus machucados foram em virtude do tombo que eu tomei ao tentar agredir os alunos na porta do colégio. Tentei falar com a moça, mãe de aluno, que me ajudou a levantar naquele dia, pra que fosse minha testemunha, mas ela achou melhor não se envolver.
Com 15 anos de idade, um pensamento me veio na cabeça: "da porta da minha casa, pra fora, sou eu e Deus. Não posso mais contar com ninguém". Na cabeça dos meus pais, ficou claro que era hora de mudar de escola. E poderia passar por 1.000 colégios, mas eu completaria meus estudos.
O colégio seguinte foi o São Judas. E foi aonde me encontrei.
Era tratado como igual, cobrado como igual. Sem privilégios, ou injustiças. Com amizades verdadeiras e tão duradouras que até hoje alguns dos alunos daquela época fazem questão de manter contato comigo.
Finalmente, eu soube o que era admirar um professor. Eu descobri o quanto que era legal ir pra diretoria, junto com aquele grupo de amigos inseparáveis, pra tomar uma bronca da diretora por ter aprontado uma daquelas, ao invés de ser chamado pra resolver uma questão de xingamento, ou agressão, que nunca dava em nada.
E foi quando eu estava no Colégio São Judas que tive contato com dois caras extraordinários que me convidaram pra montar uma bandinha de Punk Rock, só pra espantar o tédio das tardes de domingo. A semente havia sido plantada.

Dudé, Deus marca as melhores ovelhas....vc teve uma vida de muita luta, mas com grande vitória no final, que bom que te conheci e posso te admirar como ser humano, como profissiona.....
ResponderExcluirParabéns por essa luta....vc tem a vitória por merecimento!!!
Bjos
Querido amigo, se já te admirava, agora despois de ler teus relatos, você é um dos meus ídolos. Parabéns pela coragem extraordinária em viver plenamente feliz.
ResponderExcluirÉ enriquecedor conhecer mais de perto a tua história, e saber o quanto você teve que ser sábio e acreditar no verdadeiro amor para conseguir crescer em meio as marés da vida, e continuar sendo uma pessoa brilhante, tanto pelo teu talendo para seguir uma linda carreira artísitica, e como pelo exemplo de determinação em viver exatamente como você é: livre, corajoso, e cheio de garra! Além de um tesão!!!!!!!!!!!!
Continue sempre iluminando muitos caminhos pela tua estrada... Você não faz ideia de como é fundamental em minha vida. Obrigada por fazer parte do meu processo evolutivo, e estar entre os meus amigos do peito.
Beijos da sua fã e amiga de sempre,
Lê
Impossível não se emocionar lendo esse relato....só não sei como abordar sua história tão linda em 25 minutos, divididos com a Kika.....vamos dar um jeito.
ResponderExcluirVocê é um vencedor!!!!!! Ah, e sua família também, claro.....fundamental nesse processo todo.
Grande beijo e até terça.
Celinha
Colégios públicos deveriam ser modelo em acessibilidade e inclusão, pois o (DES)governo só fica querendo transferir todos os custos da própria omissão para a iniciativa privada. Quanto a colégios de freira, é sempre o mesmo problema, a igreja católica ainda favorece a exclusão, só falta querer reativar a fogueira da inquisição.
ResponderExcluir