É muito estranho escrever coisas das quais não me lembro ao certo, ou que só consigo puxar da memória em pequenos fragmentos. Mesmo assim, farei uma tentativa de contar aqui como foi parte da minha infância e a chegada da minha família à São Paulo. Quase tudo que escrevi aqui vem de uma série de histórias que sempre são contadas pelos meus pais. Histórias que desde que eu era pequeno, simplesmente adoro ouvir. São esses relatos, junto com aquilo que eu consigo lembrar, que vou dividir com todos a partir de agora.
Bom, se é pra começarmos, que seja bem do início mesmo. O dia era 24 de abril. O ano, 1972. Essa foi a data que eu vim ao mundo.
Sou o caçula do Seu Eduardo, com a Dona Lourdes (a dona do café mais famoso do mundo). Antes de mim, vieram Dagmar, Denise e Adriana. Minhas queridas e amadas irmãs.
Somos de uma cidade do interior da Bahia chamada Valença. Uma família como outra qualquer, numa cidade como outra qualquer. E que estava prestes a comemorar a chegada de mais um integrante, se não fosse por um detalhe. Detalhezinho esse que sempre teve peso pra muita gente, menos pra família Martins.
Pelos relatos da minha mãe, eu nasci na única maternidade da cidade que na época era administrada e mantida por freiras. No primeiro segundo que cheguei nesse mundinho de meu Deus, eu já choquei. Afinal, quem me conhece, sabe que eu adoro chegar em grande estílo.
Fui o primeiro caso de má formação congênita múltipla da cidade (não me admira todos terem se assustado tanto, logo de cara). Por esse motivos, as freiras da maternidade se viram num dilema: "Mostramos ele, ou não, para sua mãe? E se o mostrarmos, qual será a reação dela?". Passado um dia após o meu nascimento, e depois de muita insistência da minha mãe, Dona Lourdes finalmente veio a ter contato com seu filho. Pra depois nunca mais desgrudar dele até hoje.
Minha mãe sempre me conta que a reação que ela teve foi "sentir os pés fugirem do chão" ao me ver pela primeira vez. Sinceramente, até hoje nunca entendi com muita clareza o que ela quis dizer (aliás, até entendo. Pois não sou burro de não entender que tenho uma diferençazinha com relação aos outros), mas isso nunca me importou. O que me importa até hoje, foi o que veio depois: amor incondicional.

Fui pra casa com minha família logo após disso. E a vida continuou seguindo seu rumo com meus pais cuidando de criar seus quatro filhos da melhor forma possível. Porém, certas coisas haviam mudado: os passeios comigo na famosa pracinha da cidade, junto com as minhas irmãs, geravam buxixos e olhares de piedade. A reação da minha mãe? Simplesmente, ela nos levou pra passear no dia seguinte. E no outro dia, e no outro também.
"Eu quero ver quem é que vai tirar de mim, o prazer de eu passear com meu filho. Quem quiser olhar, que olhe! Ele é lindo mesmo!", dizia a Dona Lourdes. O que eu acho engraçado até hoje, é que a minha mãe sempre me pergunta o porquê de eu ser tão atrevido. A minha resposta é que meu atrevimento é uma simples questão de DNA, mas enfim.
Certas situações são merecedoras de desprezo. Sabiamente, minha família soube driblar o preconceito simplesmente não dando ouvidos pra ele. Essa foi a primeira lição que aprendi, e a carrego comigo até hoje.
Porém, existem outros fatores que não podiam ser ignorados: meus pais tiveram um menino saudável, assim como eram as 3 meninas que vieram antes. Só que havia um problema: além da má formação congênita, minha perna estava, digamos, na posição errada. Meu pé, só pra se ter uma ideia, estava virado quase 90 graus pra direita. Como seria possível, eu andar assim um dia?

Meu primeiro contato com algum tipo de tratamento se deu quando eu tinha 3 anos de idade, em Salvador, com um médico que acreditou que se meu pé fosse engessado durante um tempo, de acordo com que eu crescesse, ele ficaria na posição dita normal.
E quem disse que eu deixava meu pé engessado por muito tempo? Minha mãe me conta que, ao chegarmos em casa, a primeira coisa que eu fazia era bater o meu pé na parede, até que o gesso quebrasse (eu sei. Sou uma praga, e não é de hoje).
Dando o braço a torcer de que aquele tratamento não era adequado pro meu caso, o mesmo médico de Salvador aconselhou que, se eles quisessem que eu andasse um dia, que o melhor era procurar tratamento num centro de reabilitação, ou em São Paulo, ou em Brasília. Como tinhamos parentes residindo na Terra da Garôa, optamos por São Paulo. O plano era irmos pra São Paulo, ficarmos na casa de tios meus que nos acolheram de braços abertos, e voltar pra Valença em, no máximo, um ano. Mas havia um caminho bem diferente já traçado no destino da família Martins.
Chegamos pra cá pra esses lados em 1976, quando eu tinha 4 anos, numa árdua viagem de ônibus. Quando passei na minha primeira consulta no centro de reabilitação, veio a surpresa: no meu caso, o tratamento não duraria meses. E sim, anos! Se meus pais optassem em voltar pra Bahia, eu teria que ficar internado aqui.
Eu até hoje tento imaginar o que passou pela cabeça dos meus pais nesse momento. E acho que vou passar o resto da vida apenas imaginando, pois só eles mesmos pra saberem o quanto esse dilema deve ter lhes ardido na alma.
Meu pai, na época, trabalhava num banco. Viviamos numa casa confortável, com minhas irmãs frequentando a escola e todos próximos de nossos familiares. De repente, nos víamos à beira de abandonar uma vida estável, pra encarar a chamada "Terra De Doido", como São Paulo era conhecida na Bahia. Cidade grande, com outros costumes, outra rotina, outro clima. E o mais assustador: ter que começar do zero, num lugar totalmente estranho pra todos nós.Mas a decisão que meus pais tomaram foi que se as 3 outras filhas deles andavam, o quarto filho também andaria! Se suas 3 outras filhas frequentavam a escola, o quarto filho também frequentaria. Ou seja: se suas 3 filhas tinham o direito de se tornar alguém na vida, o quarto filho também se tornaria! E mesmo com São Paulo parecendo uma fera indomável pra todos nós, a família Martins veio... e venceu! Deus do Céu... e como nós vencemos!
É por essa e muitas razões que eu digo: se você não acredita no poder do Amor, conheça a minha famíla. Tenho certeza que sua opinião vai mudar.


Como é maravilhosa essa família heim amigo, que Deus continue abençoando cada vez mais e mais...
ResponderExcluirBjus
Pri Lobato
Oh, querido! Que bênção mesmo! Aliás, que bênção é maior do que ser amado, me diga?! rs
ResponderExcluirBeijão procê!
Oi, Dudé. Que palavras lindas e que história linda!
ResponderExcluirQue sua família continue unida no amor e que Deus continue abençoando vocês, SEMPRE!
É por histórias como a sua que sigo acreditando na vida e no ser humano.
Abraços,
Anna Ligia.
Simplesmente uma das mais belas historias que eu já vi.
ResponderExcluirVendo coisas assim, como é possivel dizer que não existe mais amor no mundo?
forte abraço.
Rafael
PERFEITO;
ResponderExcluirParabéns e obrigado por dividir essa história com a gente :)
Lá em casa eu tenho uma parecida, principalmente pela parte do 'mostrar o neném para a mãe'. A Dona Isabel só foi me ver de verdade depois que eu nasci dois dias depois... então quando eu vou lá em casa para passar o meu aniversário, eu tenho que ficar até o dia 22, que é quando ela vai conseguir me dar um abraço de 'feliz aniversário filho'!
Um dia desses eu conto
Parabéns de novo
abração
ps.: faltou vc no desfile terça :)
OI PESSOAL
ResponderExcluirQue bom ver tantas mensagens de carinho. Só posso agradecer a todos por tanta atenção, ainda mais com relação a um capítulo tão importante da minha vida.
DIEGÃO
ResponderExcluirPróximo desfile, é nóis na fita...kkkkkkkkk.
E quando você puder, conta a sua história também pra gente conhecer.
ABRAÇÃO
Oi Dudaaaaa,
ResponderExcluirComo sua irmã mais velha lembro direitinho, como se fosse hoje, tudo que acabei de ler. Tá me boicotando é??? Cadê uma foto minha?? Você também esqueceu de contar que falou primeiro meu nome antes de falar mamãe e papai. Yes!!! Te amo muito.
Estou com muita saudade e esperando você aqui nesse paraíso que moro chamado Ilhabela. Venha logo.
Beijão,
Dag
OIE MIGO... TDO BEM
ResponderExcluirNOSSA DUDE QUE LINDA SUA HISTORIA DE VIDA... PARABENS POR PASSAR ESSA LINDA HISTORIA PARA TODOS NOS... CADA DIA MAIS TENHO ORGULHO DE SER SUA AMIGA...
BEIJOS
DAG
ResponderExcluirCaramba, é verdade. Tá vendo? Isso é o grande barato de ter um blog: a história vai sempre se completando. Realmente, foi o seu nome que aprendi a falar primeiro.
E tenha certeza que você ainda vai aparecer muito nessa história. Esse foi só o começo.
BEIJOS, IRMÃ QUERIDA
BRUNA
ResponderExcluirFique sabendo que também tenho muito orgulho de ser seu amigo. Pela pessoa fantástica e batalhadora que você é.
BEIJÃO
Tenho o mesmo sobrenome que o seu....e percebo que os MARTINS são realmente guerreiros....Só que a minha familia é da região de Urupês/SP
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