quarta-feira, 22 de julho de 2009

AO MESTRE, COM CARINHO

1994 foi um ano de renovação. O Plano Real havia sido instaurado, trazendo novo alento pra todos que haviam sofrido com o plano Collor anos atrás. O Brasil finalmente conquistou o tão sonhado tetra campeonato mundial de futebol, em cima da rival Itália. As pessoas entravam no clima dos novos ares que o país respirava e faziam planos. Comigo, não foi diferente.
Nesse ano, eu fui substituído no Zerstorer por um vocalista que viría a se tornar um grande amigo meu momentos depois: o Marcelo, que atualmente canta na banda Ópera. O motivo da minha substituíção foi o repertório da banda que estava cada vez mais complexo e eu não tive como acompanhar esse ritmo de trabalho por questões técnicas, mesmo fazendo aulas de Canto desde 1993.
Apesar de eu ter me chateado bastante com minha substituição, isso me fez refletir muito sobre algo que mudaria meu destino pra sempre: qual a importância da música na minha vida? Até aonde eu deixaria a música me levar? A resposta à essas perguntas viriam até a mim na forma de um dos personagens mais importantes da minha estória.

Bom, eu já fazia aulas de Canto na época em que recebi um belo pé na bunda do Zerstorer, mas percebi que não era suficiente. Eu precisava direcionar minha voz pra o que eu queria.
Até a professora com quem eu fazia aulas, me orientou no sentido de eu procurar alguém mais específico. Mas quem?
Eu cheguei à conclusão que deveria ver isso com calma, queria fazer aula com a pessoa certa e eu também tava sem banda mesmo. Então não havia pressa.
Meu gosto musical estava mudando também. Gradativamente, as bandas de Heavy e Thrash Metal que eu curtia cediam espaço pras bandas de hard rock e progressivo, com uma ênfase especial pro Rush, banda da qual cheguei a ter a coleção completa de discos em vinil.

Outro fator que alterou muito meu gosto musical foi o Rhinos Bar. Através dos seus frequentadores, tive contato com o trabalho de bandas de Rock And Roll e Blues-Rock dos anos 70 que não faziam parte da chamada "Divina Trindade" da época (Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple). E foi no Rhinos que conheci um brother que viria a me indicar meu novo professor de Canto.

O vocalista da banda Mr Hide havia feito aulas com um cara chamado Nando Fernandes que fazia parte, na época, do Cavalo Vapor e do Deep Purple Cover. Pelo que eu já havia visto nos shows do Mr. Hide, realmente as aulas deram um bom resultado pra esse meu amigo.

"O cara é um excelente professor porque ele entende do tipo de som que a gente gosta", disse o meu brother. Sendo assim, tratei de pegar o telefone do Nando com ele.

No mesmo dia, fiquei sabendo que o Cavalo Vapor iria se apresentar no então Brithania, na semana seguinte. Seria uma ótima oportunidade de eu ver o Nando em ação, antes de acertar alguma coisa. Resolvi então esperar um pouco mais, antes de entrar em contato com ele. Juntei uma galera e fomos todos assistir Cavalo Vapor e Dr Sin no outro fim de semana.

A primeira impressão que tiver ao ver o Nando cantar, foi me perguntar: "cacete, esse cara é de verdade mesmo?". E o mais engraçado é que me pergunto isso até hoje, cada vez que o vejo cantando. Pra mim, ele é um cara que sempre beirou à perfeição.

Após ficar extasiado com a performance dessas duas bandas fantásticas, tive vontade de bater um papo com meu futuro professor de Canto. Porém, o pessoal com quem eu estava, queria sair do Brithania pra esticar a balada pra um outro lugar. Como eu já tinha o telefone do Nando, achei melhor ir com a galera e deixar pra conversar com ele em outra ocasião.

Também foi na mesma semana que resolvi montar uma nova banda. Mesmo sem saber direito que estílo de som seguir. Eu estava numa fase em que ouvia muitas bandas diferentes e todas elas me influenciavam de alguma forma. Foi quando a resposta veio até a mim de uma forma totalmente inusitada... só pra variar.

Numa bela tarde, dias antes de eu ligar pro Nando, meu amigo Ricardinho me encontrou no elevador do condomínio onde morávamos e me disse que tinha uma fita que queria que eu ouvisse. Quando perguntei do que se tratava, ele me respondeu: "é uma banda canadense chamada Triumph. Tem música dos caras que parece Hard Rock. Outros sons, parece Progressivo. Como você curte as duas coisas, acho que vai gostar".

Peguei a tal fita cassete do Ricardinho e fui ouvir o tal do Triumph. Moral da estória: minha cabeça girou 180 graus ao escutar aquilo!
Triumph tinha tudo que eu sempre quis ouvir numa banda: arranjos e riffs de guitarra muito bem estruturados, refrões marcantes e na falta de um, a banda possuia dois vocalistas de primeiríssima linha: O baterista Gill Moore e o guitarrista Rik Emmett. Fora que os caras compuseram um som chamado Never Surrender cuja letra, considero até hoje como um resumo da minha vida. E como se não bastasse, a banda era um power-trio. Ou seja: eram três músicos que esbanjavam talento.

Aquela fita cassete resolveu a questão do direcionamento que eu queria dar pro meu próximo projeto. Ou eu montaria uma banda com influências dos caras, ou criaria um Triumph Cover. Como em 1994 estava muito em voga as bandas de cover específico, resolvi montar um Triumph Cover e convidei o Evandro, meu velho parceiro de bandas, pra assumir o contra-baixo dessa nova empreitada. Assim como eu, Evandro se apaixonou pelo trabalho desse maravilhoso power trio canadense e tratamos de arrumar os outros componentes da banda que estavam faltando.

Enquanto isso, eu tratei de entrar em contato com Nando Fernandes. Pra cantar Triumph, eu precisaria de uma bagagem técnica. Então, fui correr atrás do prejuízo o quanto antes.

Me lembro até hoje da primeira ligação que fiz pro Nando. Conversamos durante um bom tempo por telefone e ele me explicou detalhadamente tudo que o seu curso de Canto tinha a oferecer. Marquei uma quarta à noite pra iniciarmos as aulas.

A primeira aula acabou sendo um bate-papo, onde ele me perguntou sobre muitas coisas. Desde meu gosto musical, até a minha experiência com bandas, se eu já havia estudado Canto, etc. Foi aí que o Nando fez a pergunta crucial:

- Por que você quer aprender a cantar?

- Porque cantar me faz bem - respondi a ele - Não sei bem o por quê, só sei que me faz bem. Sendo assim, quero que você me ensine.

Foi a partir daí que se deu início a seis anos de curso de Canto. Como os ensaios com o Triumph Cover começaram na mesma época, eu usava a banda como laboratório pra aplicar na prática o que aprendia durante as aulas.


O Nando dizia que eu mostrava um potencial pra coisa. Sendo assim, a cobrança durante o curso sempre foi muito grande, e agradeço muito a ele por isso. Numa ocasião, ele teve o seguinte papo comigo:


- Você é um cara inteligente o suficiente pra saber que possue uma certa diferençazinha, em comparação aos outros. Essa diferença, pra mim, não influencia em nada. Pra minha família e pra sua, também não. Também não influencia pros seus amigos que te conhecem bem. Falo isso porque todo mundo sabe da sua competência, das suas capacidades. A gente sabe que sua diferença jamais será desculpa, ou pretexto pras suas derrotas. E nunca será um trampolim pras suas vitórias, pois você não precisa se valer disso pra vencer na vida. Eu sei disso de coração.

E ele continuou:

- Só que o mundo lá fora, por pura ignorância, não sabe disso. A gente vive numa sociedade que julga o livro pela capa, você sabe. Bom, eu vou te ensinar pra que ninguém, sob hipótese nenhuma, veja a sua diferença. Ou até veja, mas em segundo plano, pois sua competência vai mostrar que essa diferença é um detalhezinho sem importância. Ao subir no palco, você será sempre a águia empuleirada na montanha mais alta. As suas garras vão ser sua voz. E quero ver quem é que vai ter coragem de desafiar uma águia empuleirada no ponto mais alto, pronta pra usar as garras! Nem o mais ignorante vai ter coragem de te encarar.

Foi nesse espírito que prossegui no curso. Sempre digo que ter aulas com o Nando se resumia em receber elogios quando merecia e tomar uns belos puxões de orelha quando precisava. A música havia deixado de ser apenas uma brincadeira, pra se transformar na minha razão de viver. E isso, eu também devo ao Nando. Finalmente, encontrei alguém que me ensinou a amar música.

E por falar em paixão, de nada adianta estar apaixonado, se você não tem o lugar adequado pra fazer amor. No mesmo ano, surgiu o lugar onde eu ia fazer amor com a música todos os sábados: o Noni-Noni Bar.

O Noni-Noni era um lugar onde os termos Rock and Roll e irmandade se fundiam em uma coisa só. Foi o meu templo sagrado durante muito tempo, lugar onde conheci pessoas extraordinárias e fiz amizades duradouras. Nesse bar, tive a oportunidade de conhecer também dois caras que, assim como o Nando, viriam a se tornar minhas principais influências: Rogério Fernandes, irmão do Nando, e o Ackua. Até hoje, considero esses três como a trinca de ases da voz. Maior que o talento deles, só o coração desses verdadeiros guerreiros do Rock And Roll.

Foi a época de assistir a grandes shows do Electric Funeral (Black Sabbath Cover, onde o Rogério era o vocalista na época); Knock Out e Whitesnake Cover (bandas das quais meu querido brother Ackua era o vocalista). Isso sem falar no Deep Purple Cover e no Cavalo Vapor, bandas que o Nando assumia o vocal.

Era a época de conversar durante a aula sobre os acontecimentos do último show do Uriah Heep, de estudar feito doido durante a semana. De cair de balada no Noni-Noni no sábado e ensaiar com o Triumph Cover no domingo. Época de discutir desde o último disco lançado pelo Glenn Hughes, até a última menininha que pegamos na balada. Eram bons tempos.

O Noni-Noni era meu antro de perdição, local de diversão e a minha verdadeira Escola do Rock. Tudo no mesmo lugar! Mas havia chegado a hora desse saudoso bar se tornar o lugar onde eu mostraria que o Dudé veio pra ficar. Depois de meses de ensaios, minha banda tinha uma data de show marcada. E seria numa quinta-feira. Só pra mostrar pros donos da casa, e pra poucas testemunhas, do que o nosso Triumph Cover era capaz.

Esse primeiro show teve dois episódios inesquecíveis pra mim: foi uma noite que caiu uma chuva tão forte, que quase não conseguimos chegar, mas chegamos e fizemos o show. E foi também a primeira vez que o Rogério viu uma apresentação minha.

"Meu irmão pediu pra eu vir aqui pra ver como você se comporta. Se você fizer merda, vou dedurar pra ele. Não quero nem saber!" disse o Rogério sorrindo pra mim, um pouco antes de eu subir no palco.

Eu sei que naquela noite, o show correu bem, os donos da casa gostaram e fui pra aula na semana seguinte, esperançoso do Rogério ter passado um relatório favorável à minha pessoa pro Nando.

- O Rogério falou super bem de você e da banda, gostei de saber. No próximo show, eu vou conferir pessoalmente - disse o meu professor de canto, no intuito de me incentivar através da pressão. Aliás, diga-se de passagem, não existe forma melhor de se incentivar alguém do que jogar a responsabilidade pro mesmo. No show seguinte, o Nando estava na platéia e curtiu muito o que ouviu.

- Moleque, gostei pra caramba de você cantando, sua postura de palco, etc. O caminho é esse mesmo, mas ainda temos bem o que trilhar. - disse meu mestre Jedi que sempre acreditou no meu potencial.

Música se tornava cada vez mais a minha disciplina. Parei de beber e comecei a cuidar melhor de mim pra preservar meu instrumento mais valioso: minha voz. Eu acordava música, comia música, bebia música e dormia música.

Foi a época dos relacionamentos afetivos que nasciam pouco antes de eu subir no palco, e terminavam pouco antes de eu terminar o show seguinte. O que eu mais ouvia de reclamação das meninas era que eu só arrumava amantes, pois namorada séria mesmo, eu já tinha a música.

Com 22 anos de idade, eu não me importava com esse tipo de observação. Eu só queria cantar, só isso! Tudo que eu queria era um palco, com um microfone na minha frente e uma banda recebendo os aplausos do público. Era o que importava pra mim.

Os relacionamentos terminavam com lágrimas, cerveja e uma boa transa depois do show, que só me serviam de inspiração pra que eu fizesse uma interpretação mais acentuada, nas baladas românticas que o Triumph Cover tocava. Com certeza, foi a fase mais radical da minha vida.

Quando não lidava com música de forma direta, eu arrumava um jeito de lidar de forma indireta. Cheguei a trabalhar como vendedor de instrumentos musicais e técnico de som num estúdio de gravação só pra bancar as minhas aulas. E fui tocando a vida dessa forma até o ano de 1999, quando entrei na reta final do curso de Canto. O Noni-Noni não existia mais, muito menos o Triumph Cover, mas surgiram outras bandas pra eu trabalhar como vocalista. Assim como outros bares pra me apresentar.

Nesse ano, surgiu a necessidade de eu arrumar uma fonte extra de renda pra continuar bancando as minhas aulas, pois foi quando comecei a ajudar nas contas daqui de casa. Eu não queria parar com o curso, justo quande estava pra terminá-lo

Foi quando surgiu a oportunidade de me tornar professor de Canto numa instituição de reabilitação de deficientes físicos. Eu não podia iniciar de forma melhor, a minha carreira como professor. Sendo assim, aos 27 anos de idade, fui encarar mais esse desafio na minha vida e com o aval do Nando. Fora que era uma ótima oportunidade de dar minha contribuição social também. Afinal, eu já fui paciente de um centro de reabilitação durante anos. Parei de dar aulas nessa instituição pra trabalhar como professor em 2000 na minha própria casa.


Nesse mesmo ano, meu curso de Canto havia chegado ao fim. Mesmo depois de terminar o curso, continuávamos a nos encontrar no Café Piu-Piu, quando o Nando se apresentava com o Kaleidoscope e, posteriormente, com a banda Rádio Show. E sempre com direito à alguma jam da minha parte.

Os anos foram passando e quando menos esperava, o Nando me surpreendeu mais uma vez, com as suas aparições antológicas no Programa Raul Gil, competindo no quadro "Quem sabe, Canta. Quem Não Sabe, Dança". Foi quando minha família teve a oportunidade de acompanhar, e torcer, por aquele que havia me ensinado durante tanto tempo.

Em 2004, havia chegado a minha vez de passar no teste pro Raul Gil. E minha gravação se deu no fim do mesmo ano, com a minha participação sendo transmitida em janeiro do ano seguinte. A música que cantei? Lay It On The Line do Triumph, é claro!

Foi um dia em que o Nando me mostrou a diferença entre ser professor e ser mestre. Ele ficou o tempo todo do meu lado, passando a sua experiência em programas de auditório pra que tudo corresse bem comigo. E não poderia ser melhor...

Naquele janeiro de 2005, minha voz e imagem correram o Brasil todo pelas ondas da TV chegando numa cidadezinha chamada Valença, onde muitos anos antes, uma família havia saído com a cara e a coragem pra procurar tratamento médico pro seu integrante mais novo. Aquele que havia saído do interior da Bahia sem muitas apostas de vitória, retornava com uma força que poucos poderiam prever. A águia empuleirada no topo do mundo mostrava suas garras pra alívio e alegria de muitos que assistiram à minha partida, e da minha família, em 1976.

Hoje, sou um dos caras responsáveis por seguir com o legado de Nando Fernandes, algo que me enche de honra. Tenho meu home studio, onde administro as minhas aulas, trabalho cantando na noite, além de ter inúmeras gravações em estúdio. Me encontrei como profissional e como pessoa, graças a um cara que teve a capacidade de enxergar a águia que existe em mim.

Essa águia voa cada vez mais alto hoje em dia. E faz questão de deixar bem claro que foi um grande mestre chamado Nando Fernandes que a ensinou a ganhar o céu.

8 comentários:

  1. Opa

    "-não vai ser desculpa para os seus fracassos, nem trampolim para suas vitórias"!
    bastante gente precisava ter essa lição nénão?

    cara, bacana o texto
    quem sabe um dia eu escreva um assim de vc \o/
    falando nisso... precisamos acertar minhas aulas... vou deixar 3 meses pago pra ter certeza que vou fazer

    abraço

    ResponderExcluir
  2. GRANDE BROTHER

    Por essa, e muitas outras razões, que agradeço a Deus por ter um mestre como o Nando me ensinando qual caminho seguir, num momento crucial da minha vida.
    Quanto às aulas, é só a gente marcar...rsrs.

    ABRAÇÃO

    ResponderExcluir
  3. Parabéns Dudé, linda sua história, cara !!!

    ResponderExcluir
  4. Dudé, parabéns pela força, pela luta e conquistas.
    Parabéns ao Nando pelo profissional e ser humano.
    Abção aos dois e Rock On.
    Xando Zupo

    ResponderExcluir
  5. Oiiee adorei o seu blog muito show
    beijos

    ResponderExcluir
  6. grande DUDÉ,cara to emocionadissima com o que acabei de ler vc é uma lição de vida pra qualquer ser humano tenho orgulho de ter vc como um grande amigo e depois do que eu li agora minha adimiraçao por vc aumenta mto mais quero estar sempre ao seu lado para apaludir cada vez mais suas conquistas pois vc merece sempre mais e o melhor por ser um cara humilde batalhador e super ilumidado duuuu te adoro de coraçao cara que deus continue ye iluminando sempre por todos os caminhos da sua vida susesso sempre parabens beijao RAQUEL

    ResponderExcluir
  7. sou sua FÃ... SUCESSO GAROTOOOOO

    ResponderExcluir
  8. muito bom o seu blog.
    tb uma pessoa incrivel como vc, tem q gostar mesmo de perfeição...
    e ñ esqueça que Deus ama vc e que vc é uma pessoa muito especial para ele.
    E que vc soube realmente usar os dons que ele te deu.
    Ha ele tb mandou um recado para vc, que vc ñ o esqueça pos ele nunca te esqueceu sempre esteve do seu lado nas horas em que vc mais precisou.
    xero gosto muito de ti...

    ResponderExcluir