O Evandro sempre foi o cara metódico, aquele que se apega aos mínimos detalhes. Essa característica veio a fazer a diferença nas outras bandas que viemos a particiar a seguir. Um cara tímido, que deixava sempre claro que quem se aproxima dele, deve primeiro ganhar sua confiança. Nunca foi uma pessoa de falar muito, mas me lembro dele como aquele que sempre falava o necessário, no momento certo. Inclusive na hora de tirar sarro de alguém, ou de alguma coisa. O que no nosso caso, que sempre tínhamos um senso crítico super afiado, acontecia com bastante frequencia
O Alessandro é totalmente o contrário. Uma pessoa expontânea, um cara impulsivo em muitas ocasiões. Conversava com todo mundo, fazia amizade com todos. Tinha um senso crítico muito apurado, estava sempre de bom humor. Fazia o que lhe dava na telha, sem se preocupar muito com a opinião alheia.
E junto com eles, estava eu. Horas, eu achava necessário chutar o balde com determinadas coisas, como o Alessandro agia. Em outras ocasiões, eu achava que devia ponderar e pensar nos prós e contras, como o Evandro fazia. Em muitas ocasiões, tive a honra de ser o freio de um, pois não se vive chutando o balde o tempo todo, e o acelerador do outro, porque certas coisas da vida são mais divertidas de se fazer sem ponderar.Nós três tínhamos outra coisa em comum: o Rock And Roll.
Desde 1985, minha visão do mundo havia mudado, a partir do primeiro Rock In Rio, que foi transmitido pela TV.
Assistia empolgado aos shows de Ozzy Osbourne, Scorpions, Whitesnake e Iron Maiden. Porém, teve uma banda que foi a responsável por dar uma guinada de 180 graus na minha vida: Queen. Esse foi o show do qual assisti e pensei de imediato: "é isso que quero fazer da minha vida!". Aquele show me marcou de tal forma que anos depois, a profecia se concretizaria.
A Mooca dos meus tempos de adolescente era um bairro que não tinha muito o que fazer. Havia a Over Night, danceteria que se encontrava na Rua Juvenal Parada. Ficávamos na porta dessa danceteria, nos botecos do outro lado rua, jogando conversa fora até os frequentadores saírem de lá. Quando saiam, sempre acontecia algum tipo de problema. Os problemas mais simples eram resolvidos no tapa ali mesmo. Os mais graves, normalmente se extendiam durante a semana, com turmas tomando partido daqueles que tinham culpa no cartório, ou não. Se encontrando à noite pra se espancarem uns aos outros.
Havia os momentos de calmaria. Assim como os embates que duravam dias. Quando a coisa toda era resolvida na porrada, tudo bem. O problema foi quando começou a aparecer gente resolvendo suas diferenças na bala. Perdi dois amigos por causa desse tipo de estupidez. Nesse campo de batalha estávamos eu, o Alessandro e o Evandro.
O Evandro por ser mais reservado, não se envolvia muito nessas brigas. Mas eu e o Alessandro, que sempre estávamos pela rua na hora errada e no lugar errado, sobrava alguma coisa às vezes.
Foi nessa época que resolvi usar minha prótese superior outra vez. Meu braço mecânico era aquele antigo tipo canadense, feito em madeira e alumínio. No lugar da mão, ele possuía dois ganchos feitos em alumínio maciço que abriam num movimento em pinça. Comecei a usá-lo como "esmagador de crânios" caso fosse necessário. Era o que eu tinha pra me defender, caso minhas caminhadas noturnas acabassem em algo, digamos, desagradável.
Pra ajudar mais ainda, numa das primeiras vezes que usei o braço mecânico pra arrebentar alguém, fui arrumar confusão na frente de um templo evangélico, onde os religiosos saíram à rua gritando: "Pára, pára! Você está acabando com o rapaz com esse instrumento do diabo!!". E olha que o moleque com quem briguei naquela noite nem fazia parte daquela igreja.
No dia seguinte, a notícia se espalhou pelo bairro e meu braço mecânico ganhou um apelido super meigo da galera: Satan. Eu era o cara que andava à noite, com o Satan do lado. Sinceramente, ninguém merece.
O tempo foi passando e muito dessas situações que descrevi, continuavam a acontecer constantemente. Eu comecei a cansar de tudo aquilo.
Numa bela noite, sentado na guia da calçada na Campineiros junto com o Alessandro e o Evandro, veio a ideia brilhante. E essa ideia só podia vir do Alê.
Ele disse que tinha umas economias no banco. Que como estava pra completar 18 anos, podia mexer nessas economias sem pedir permissão pra sua mãe. A ideia era comprar todo equipamento necessário (amplificadores, caixas de som, potencia, guitarra, baixo e bateria) pra montarmos uma banda. O Evandro cederia o espaço pra ensaiar que seria os fundos da sua antiga casa, pois sua família havia se mudado pra um apartamento semanas antes.
Nós haviamos achado uma solução. Íamos matar o tédio, antes que o tédio nos matasse.
O que o Alessandro tinha de dinheiro guardado não era nenhuma fortuna, mas serviu pra que comprássemos um equipamento modesto que servia bem pro que queríamos. Logo depois disso, o Evandro adquiriu seu próprio equipamento vendendo sua mobilete pra comprar um ampilificador. O seu pai conseguiu um contra-baixo fazendo uma base de troca com uma caixa de uísque. Ter o Rock And Roll no sangue é isso.
A parte inusitada da banda ficou a cargo de quem seria o baterista. Ou seja: eu.
- Alê, valeu pelo convite, mas pra tocar bateria não é necessário ter uma coisa chamada mão? - perguntei pro Alessandro ironizando.
Só que esse meu grande brother era o homem das ideias. Ele disse que eu tocaria bateria amarrando as baquetas aos meus cotos com fita adesiva. Dito e feito!
Apesar da depilação forçada que eu tinha que passar cada vez que separavam as baquetas dos meus braços, eu abracei a ideia com entusiasmo. E foi assim que os ensaios começaram aos domingos à tarde. O repertório: bandas como Ramones, Sex Pistols e Dead Kennedys. Punk Rock de primeira.
Nossa vida se resumia a ir até a famosa Galeria Do Rock, no centro da cidade, aos sábados. Quando tínhamos uma graninha guardada, comprávamos algum disco. Quando estávamos duros, fazíamos amizade com algum dono de loja que nos gravava o disco que queríamos em fita cassete.
Aos domingos, ensaiávamos a tarde toda. Entre reclamações dos vizinhos, moleques que tentavam invadir a casa do Evandro pra roubar nosso equipamento e visitas da polícia por distúrbios na vizinhança, nós sobrevivíamos. A rua já não era mais necessária.
Eu costumo a dizer que essa primeira banda foi a semente que fez gerar a árvore que se tornou minha vida hoje. Porém, começamos a sentir na pele pela primeira vez, o stress de fazer parte de uma banda. Desentendimentos entre nós três resultou no término do nosso projeto.
Como não havia mais banda, fiz a asneira de voltar a perambular pela rua à noite outra vez. Mas isso durou pouco tempo.
Numa noite em que me encontrava num boteco de esquina perto do colégio São Judas, me deparei com um sorridente Evandro que me disse:
- Porra, é mais fácil falar com o Papa do que com você. To te procurando faz um puta tempo!
- Faaaaala, meu filho. Que bom rever você. E aí, o que manda? - respondi contente ao ver meu brother do contra-baixo outra vez.
A novidade era uma outra banda. Só que essa precisava de vocalista. No projeto anterior, eu já havia me aventurado no vocal algumas vezes, mas na minha cabeça, eu tinha que ser baterista.
O Evandro me contou da banda nova. Estava tudo muito na fase inicial e os caras se prontificaram a fazer um repertório só com Ramones pra pegar mais entrosamento entre os integrantes. A ideia era eu ser o vocalista e em troca, o baterista da banda me daria umas aulas do seu instrumento. Nossa, topei no ato!
Na semana seguinte, participei do primeiro ensaio na casa do Dirceu, o baterista, que morava na região de Moema. Nascia alí o Zerstorer.

Como eu era o único da banda maior de idade, mas não sabia dirigir, todo ensaio era feito um esquema de carona. Pra essa função, revezavam-se meu pai, o pai do Evandro e o pai do Humberto, um dos guitarristas da banda. Isso era necessário, pois junto com a gente ia também o equipamento de cada um.
Em algumas ocasiões, nós íamos pra casa do Dirceu no sábado à noite, caíamos de balada, bebíamos até as tripas não aguentarem mais, voltávamos vomitados pra casa do nosso baterista e ensaiávamos azedos no domingo. Afinal de contas, Zerstorer era uma banda de machos. Podres, é verdade. Mas machos!
E mesmo com essa atitude podreira, ainda haviam algumas meninas que nos adoravam. Vai ver era por causa dos nossos cabelos compridos e tatuagens que começávamos a cultivar naquela época. Apesar que as meninas eram bem podres também, confesso.Logo surgiu a oportunidade do nosso primeiro show. A festa de aniversário do nosso grande amigo Ivan que aconteceu na garagem do seu prédio e terminou com a vizinhança chamando a polícia pelo excesso de barulho (putz, que novidade!).
Através dessa festa do Ivan, conheci outro grande brother: o Poá que na época era baterista de uma banda chamada Veritas. Ele nos convidou pra participar de um festival que aconteceria num colégio chamado Maria Emaculada, que fica na região do Paraíso. Esse evento acontecia todos os anos no teatro que ficava dentro desse colégio e reunia, em média, umas 500 pessoas. Seria nosso grande teste.
Ensaiamos mais do que nunca pro grande dia do festival. Todos os nossos amigos foram nos encontrar na casa do Dirceu pra irmos todos juntos pro grande evento. O problema é que havia um carro só pra levar 15 pessoas. E eu não to exagerando, havia 15 pessoas mesmo.
Quem se prontificou a nos levar até o local do show, foi a mãe do Yuri, o segundo guitarrista da banda que dividia as bases e os solos com o Humberto. A solução que arrumamos foi transformar o Santana Quantun da mãe do Yuri num jogo Tetris, onde as peças que vão uma por cima da outra eram os integrantes da banda, os amigos dos integrantes da banda e nossa corajosa motorista que estava com vontade de matar o próprio filho por razões óbvias. Me lembro de ouvir o barulho do escapamento do carro se soltar, arrastando no asfalto em virtude do peso, quando saímos. Mas não havia tempo pra nos apegarmos a detalhes sem importância, tínhamos um show pra fazer.

Ao chegarmos no Maria Emaculada, corremos com a nossa tropa pro local onde se encontrava o palco. O ano era 1991, eu tinha 19 anos. Vou guardar esse show na memória pra sempre. Tocávamos uma música atrás da outra. Só Ramones. Quase que aquele teatro veio abaixo com tanta gente agitando e pulando do palco, tomados pela nossa energia. Foi quando a ficha caiu pra mim que aquilo que fazíamos não era brinquedo. Música tem um poder muito forte. E o Rock And Roll então, nem se fala.
Os ensaios continuavam, mas o repertório foi mudando. Em virtude das influências dos discos Black Album do Metallica e Fear Of The Dark do Iron Maiden, que causaram grande repercussão na época, começamos a tirar músicas dessas grande bandas, além das nossas próprias composições, com destaque pra Santa Claus Is Dead que o pessoal adorava
Foi a época das baladas às sextas à noite no Rhinos, bar de Rock And Roll do meu grande amigo Naldo. Lá, nós respirávamos Rock And Roll, conversávamos Rock And Roll e até bebiamos Rock And Roll, pois o Naldo criava batidas com os nomes Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Led Zeppelin e por aí vai.
Nesse ambiente, conheci um sujeito chamado Neivas. Um cara que podemos resumir como a Enciclopédia Barsa do Rock. Ele foi responsável por eu conhecer as influências das minhas influências na época, só pra se ter uma ideia.
O Neivas organizou em 1993, um festival no salão de buffet pertencente à sua mãe, onde tocaram as bandas Zerstorer, Mr. Hide e Veritas.
Montamos um palco feito de madeira compensada e engradados de cerveja, ligamos os amplificadores no volume máximo e lógico, convidamos todos os fãs de Rock And Roll da Mooca e região pra uma baita festa. Dessa vez, sem a presença da polícia.
Em virtude da banda começar a tirar músicas tecnicamente mais complexas, eu senti a necessidade de estudar Canto pra aprimorar minha voz. Então, fui ter minhas primeiras aulas com a coordenadora do Coral da Igreja do Bom Conselho. Ela me dava aulas na infelizmente extinta escola Solo e Harmonia. Foi numa audição dessa escola, que meus pais tiveram a oportunidade de me ver cantar pela primeira vez.
As aulas de Canto que tive na Solo e Harmonia me serviram de alicerce, mas eu queria mais que isso. Minha professora na época aconselhou-me a fazer aulas com um professor que fosse mais específico.
Em 1994, eu sentia uma necessidade muito grande de levantar vôos cada vez mais altos. Só que pra isso, eu precisava de alguém que me ajudasse com as minhas asas.
Esse é o fantástico DudÉ!!!!
ResponderExcluirDudé,
ResponderExcluirPuta! Continua que tô adorando ler tua história!
E se um dia você tiver afim de editar um livro, faço questão de ser a primeira a ler teus originais e dar aquela força, tá?
Beijos e abraços,
Lê
Não nos conhecemos,mas sou já uma grande fã sua,acho vc um cara forte por tudo que passou,e é isso aí!!bola pra frente,assim faço da minha vida tbm!bjs
ResponderExcluirvc é o cara dude .herdeiro de um grande legado,uma pessoa capaz de tocar a sencibilidade de qualquer ser humano. te conheci pela tv e me senti como se eu fosse tambem seu amigo . gostaria d3e me corresponder com vc , temos em comum a musica,e a alegria de sentir a presença de Deus em nossas vidas. ate breve.
ResponderExcluircaramba eu fiz isto com vc , me desculpe dudé te levar p/ mau caminho rsssss abs do evandrão..
ResponderExcluirkeep groove forever..
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