segunda-feira, 7 de setembro de 2009

ASILO 70 - TRIBUTO À FASE ÁUREA DO ROCK

Das 3.675.418 bandas que fiz parte, algumas são merecedoras de destaque por possuir ótimas histórias pra contar. O Asilo 70 foi uma dessas bandas que em seus sete anos de existência, gerou uma relação de amor e ódio entre seus integrantes.

Tudo começou no ano 2.000, quando eu estava profundamente influenciado pelas bandas da década de 70. Na época, eu percorria os bares paulistanos assistindo inúmeras bandas cover e confesso que fiquei um tanto quanto decepcionado. O motivo de tal decepção se devia ao fato que quase todas as bandas cover de São Paulo trabalhavam praticamente com o mesmo repertório. Cair de balada no Bixiga naquela época era quase como assistir a um filme da Sessão da Tarde: a gente assistia sabendo o final, pois já havia visto aquele filme dezenas de vezes.


Aquela situação me fez refletir sobre os rumos que meu próximo projeto tomaria. Eu estava determinado a colocar em prática, uma banda que possuísse em seu repertório, as músicas que eu adorava (e ainda adoro) ouvir, mas tudo feito com muito critério, respeitando a sonoridade e feeling dos maravilhosos anos 70. Só que pra isso, eu precisava fechar uma formação com o mesmo gosto musical que o meu. Então, resolvi começar a procurar pelo guitarrista.

Num papo que tive numa das minhas baladas com um dos meus amigos, recebi a indicação de um guitarrista fã de Hendrix e que adorava tocar os sons dos anos 70 com total fidelidade. No dia seguinte, resolvi ligar pra esse cara.

O nome do guitarrista era Willie e no primeiro papo que tivemos, deu pra perceber que muitas das nossas idéias batiam. Eu havia arrumado o guitarrista ideal, mas faltava o restante da banda.
O Asilo-70 foi uma banda que se tornou marco na minha carreira, por ser o meu primeiro projeto onde usei uma ferramenta chamada Internet pra ajudar a encontrar as peças que faltavam. Eu tinha contato com a famosa rede mundial de computadores na casa do Nando Fernandes que, de tempo em tempo, imprimia sites com biografias das bandas e músicos que eu curtia. Porém, após minha irmã e meu cunhado se casarem, eles moraram um período junto comigo e os meus pais. Meu cunhado estava começando a entrar no mercado de web design, ramo do qual trabalha até hoje.

Como agora tínhamos um computador conectado à Rede, comecei a me aprofundar mais nessa tal de Internet. Foi o início dos anuncios virtuais das minhas aulas de canto e da caça de classificados de músicos procurando bandas.
A Internet mostrou um lado bom, e outro ruim. A parte boa da história é que eu tinha uma resposta muito mais rápida do que os panfletos que eu espalhava pela Teodoro Sampaio quando precisava procurar músicos. O lado ruim foi a quantidade de gente que eu e o Willie tivemos que testar, sem conseguir achar os caras que faltavam pra completar a banda. Mesmo assim, continuamos a procurar.

O primeiro cara que consideramos ideal (ufa, finalmente!) foi o Johnny, baterista veterano que possuía no currículo uma passagem pela Destroyer, famosa banda cover do Kiss. Porém, tínhamos que achar um baixista pra completar a formação do novo projeto.

Depois de meses anunciando na Internet, e de testar vários baixistas sem sucesso, encontramos o cara que faltava. Seu nome: Edu J.

Uma vez fechada a formação da banda, decidimos escolher o repertório a ser trabalhado e o consenso que chegamos foi que andariamos na contra-mão do repertório da maioria das bandas cover da época. Por exemplo: quando escolhemos as músicas do Deep Purple que tocaríamos, descartamos a famosa Smoke On The Water, que 90% das bandas tocavam na época, pra tirarmos sons como Maybe I'm A Leo e Gettin' Tigher. Isso sem falar de bandas como James Gang que adorávamos tocar nos shows, entre muitas outras.

Os músicos do Asilo-70 possuiam características distintas que ajudavam a dar uma certa identidade à banda. Havia a pegada forte da bateria do Johnny, proviniente da sua influência Metal. Assim como o baixo groove e bem fraseado do Edu J. e a guitarra com som vintage do Willie. Nessa salada toda, misturava-se a minha voz fechando a demanda.


Após muito tempo de discussão sobre o nome da banda (nem vou citar algumas sugestões aqui, pois certos nomes eram absurdos. Principalmente, os que eu inventava!), chegamos à conclusão que o ideal era que o nome da banda deveria passar um recado simples e direto: gostamos de sons das antigas! Assim era batizada a ASILO 70.
Começamos a ensaiar o repertório semanalmente, num sistema que batizei irônicamente de Híbrido. Na época, havia surgido o MP-03 que podiamos baixar do computador, mas não podíamos gravar numa mídia, pois os gravadores de CD custavam muito caro na época. Fora que era um inferno baixar um único MP-03 através de conexão discada. Me lembro de uma ocasião, eu ter levado uma madrugada inteira pra baixar uma única música que eu era obrigado a colocar numa fita cassete pra levar o repertório pra todos da banda. Foram os bons tempos do Napster e do Audio Galaxy.

Fomos trabalhando repertório e então, gravamos a primeira demo pra que fosse distribuída nos bares. E então, se deu início à série de shows no Dinossauros Bar, em Pinheiros; no Willy-Willie, em Moema e Manifesto, no Itaim Bibi. Tudo corria relativamente bem, até que os conflitos começaram. Sendo assim, houve nossa primeira baixa: Johnny deixava de assumir a bateria do Asilo 70.

Lá vou eu outra vez percorrer o raio da Internet atrás de outro baterista. Em 2002, entra em cena o baterista Cuca Santos que nos acompanhou num show, digamos, pitoresco.

Edu J. fazia parte na época de um motoclube cujos integrantes nos convidaram pra tocar num bar chamado O Postinho. Esse bar possuia uma característica pouco comum: uma banheira branca, daquelas bem antigas com as pontas arredondas, e em sua extremidade encontrava-se um chuveiro preso a um cabo de vassoura. Nem é preciso dizer que tal cena fez eu exclamar um sonoro "que porra é essa?", pois eu não havia entendido nada. Mas a devida explicação viria no decorrer da noite.

Fizemos a primeira entrada do show com uma das platéias mais receptivas e simpáticas que haviamos tocado até então. Era o início da relação do Asilo-70 com a galera dos motoclubes.

Após meia hora de show, nós demos uma pausa e todas as atenções se dirigiram pra banheira. Foi quando surgiu uma morena de cabelos longos que estava vestindo um roupão. Bom, vou deixar de fazer suspense e contar logo o que aconteceu: a morena tirou o roupão, ficou de calcinha e sutiã, ligou o chuveiro, entrou na banheira e iniciou uma dança erótica toda molhada (literalmente falando) pro delírio da platéia.

Foi quando se aproximou de mim, um cara de mais ou menos 1.90m, com a cabeça raspada e os braços lotados de tatuagem e sorrindo, me disse:

- Que puta morena gostosa, cara!

E eu respondi sorrindo também:
- Pode Crer!
Então, ele me confessou um detalhe que me fez gelar a alma:
- É a minha mina, caralho!

Bom, eu havia acabado de chamar de gostosa, a namorada de um cara que parecia um figurante de filme do Chuck Norris. Em resumo: minha vida ia terminar alí e de um jeito bem doloroso. Foi quando tentei reverter a situação:

- Cara, foi mal. - disse pro sujeito
-Ué, você não falou que ela é gostosa? - respondeu o cara me fuzilando com os olhos

- Disse, mas não foi bem do jeito que você tá pensando - eu não podia ter dito coisa mais idiota!
- Afinal, minha mina é, ou não é, gostosa? - me perguntou o grandalhão.

Aquele papo começou a me irritar. E infelizmente, quando fico puto, tenho uma certa tendência a perder a noção do perigo. Foi quando respondi seco pro cara:

- Quer saber? Sua mina é gostosa pra cacete! E aí?

Eu já tava esperando a primeira porrada, quando o sujeito abriu um largo sorriso e me disse:

- Assim que se fala, baixinho. Você quer uma cerveja?

Bom, o restante da noite foi sem grandes sustos. Aquele deve ter sido um dos shows mais legais que o Asilo 70 havia feito até então. Sai do Postinho com ótimas amizades. Inclusive, do brother com os braços tatuados.
Meses após esse show, Cuca Santos deixa banda por questões financeiras. Então, Johnny reassume a bateria.... pra logo depois o Willie sair da banda! Lá vai o vocalista aqui correr atrás de outro guitarrista.
Depois de alguns testes, escolhemos um guitarrista chamado Pascale. Um cara super gente boa e que tocava muito bem.
Com essa formação, fizemos um show no estacionamento do centro de reabilitação de deficientes físicos do qual eu havia sido paciente durante tantos anos. Foi um dos shows mais emocionantes do Asilo-70.

Após isso, Pascale teve que se mudar com a esposa e a filhinha recém-nascida pra Praia Grande. Sendo assim, ficamos novamente com uma lacuna a ser preenchida. Se alguém adivinhar quem foi o guitarrista que entrou no lugar do Pascale, eu vou dar um doce. Só uma dica: ele foi da formação original da banda. Pois é, olha o Willie de volta!

Por isso que eu disse que o Asilo-70 foi uma relação de amor e ódio entre seus integrantes. O Johnny mesmo, chegou a sair e voltar pra banda em outras ocaisões. Parecia que a gente trocava mais de baterista do que de meia, mas enfim...

Foi com a chamada formação clássica da banda (Johnny, Edu, Willie e eu) que participamos do primeiro INCLUSOM, festival que aconteceu no Manifesto em 2005 e foi elaborado por mim e pela minha amiga, a jornalista Leandra Migotto, e que tinha o objetivo de arrecadar fundos pra instituições que trabalhavam com deficientes físicos. Só pra variar, nesse show também aconteceu algo pitoresco. E pra não perder o costume, foi comigo outra vez.



Ao entrar no Manifesto pra fazer a passagem de som, eu tropecei no próprio pé (coisa de usurário de perna mecânica que tenta correr) e fui literalmente de rosto no chão. O barulho da minha testa batendo no piso do bar foi tão alto, que uma das garçonetes chegou a dizer: "Porra, derrubaram o barril de chopp no chão outra vez?"


O pessoal da banda e os funcionários do Manifesto me ajudaram a levantar. Porém, o que havia acontecido comigo era preocupante. Eu estava com um corte no super-cílio esquerdo que não parava de sangrar. Cogitaram de me levar a um hospital pra que eu levasse pontos, mas se fizéssemos isso, não haveria tempo pro show.

Porém, o Willie havia começado a namorar com uma médica que o acompanhara na passagem de som. Foi essa moça que deu a idéia de dar um ponto falso com esparadrapo pra parar o sangramento.

Todos correram pra farmácia mais próxima pra comprar esparadrapo, gase, mertiolate, etc... tudo que era necessário pra dar o ponto falso. Voltamos pro Manifesto e nos trancamos no banheiro pra que a namorada do Willie remendasse a minha testa.
Eu lembro que o sangramento parou na terceira tentativa. Eu e o Willie saimos do banheiro e corremos pro palco. Havia um show pra fazer em nome de uma causa nobre. Graças a Deus, o resto da noite correu sem maiores problemas. Pois é, Deus no coração e Rock And Roll no sangue!!


O Asilo-70 encerrou atividades em 2006. Em 2007, tentei reformular a banda com outros músicos que deram uma roupagem mais pesada aos grandes clássicos dos anos 70. Com essa formação, chegamos a fazer o segundo INCLUSOM também no Manifesto. Foi o encerramento de sete anos de história da banda com chave de ouro.
Eu fico imaginando como seria a trajetória da banda com os recursos de hoje. Apesar da Internet contribuir com o nascimento do Asilo-70, não tínhamos ferramentas de divulgação como o Orkut, My Space, Twitter, etc. Mesmo assim, o Asilo-70 foi um exemplo do que pode ser feito com perseverança... e amor ao Rock And Roll!!


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