domingo, 12 de junho de 2011

DIFERENÇAS?

É engraçado, isso pra não dizer estranho, o como a Internet consegue me surpreender em alguns aspectos. E o que eu falo nem se aplica a casos típicos de utilização da Web como ferramenta de trabalho, mas de reencontros que geram histórias emocionantes e divertidas quando menos esperamos.

Bom, no final de 2010, estava eu cuidando dos recados e anúncios que envio e recebo todos os dias via Facebook, Orkut, Twitter e e-mail.

Muitas vezes, sou forçado a comparar essas ferramentas a algemas pois a impressão que me passa é que quanto mais eu tento organizar minha "vida virtual", mais bagunçada ela fica.

Porém, num dia lá pra meados de novembro, se eu não estiver enganado, recebi uma visita surpreendente no meu Facebook: um amigo de longa data, e que eu havia perdido contato há muito tempo, tinha me encontrado pelos tortuosos caminhos virtuais. E quando falo amigo de longa data, não estou exagerando.

Só pra se ter uma ideia, esse cara me conheceu ainda na época em que eu pensava em dar meus primeiros passos como músico (nossa, isso faz muito tempo!). O seu nome: Ricardo Calabro.


O Ricardo era o cara que saia do colégio comigo pra aprontar na rua. E quando digo aprontar, é aprontar com A maiúsculo.
Numa dessas ocasiões, digamos inspiradas, aproveitamos pra passar um trote. Eu tinha uns 16 anos na época e o Ricardo, bom, acredito que ele tenha a mesma idade que eu. De qualquer forma, isso não importava. O que valia mesmo era a vontade de aprontar uma que "virasse lenda" e na adolescência eu era craque nisso.

Resumindo: era começo de ano letivo, período em que os ditos veteranos caçavam "calouros" pra pedir dinheiro nos semáforos, na intenção de angariar fundos pra uma bela cervejada no final do dia, o conhecido trote. Pra ser sincero, eu nem me lembro se eu era calouro, ou veterano. Mas me lembro bem que gostava muito de cerveja. Sendo assim, montamos nosso pedágio em pról de uma grande causa.

O problema era que o Ricardo não convencia muito os motoristas a cooperarem com o pedágio. Foi então que virei pra ele e disse: "não esquenta, eu arrumo a grana e você guarda". Só sei que as histórias que
contávamos pros pobres motorista
s eram as mais absurdas e hilárias possíveis. Alguns davam dinheiro por acharem divertido, outros por perceberem que era a unica forma de se livrarem da gente. Ainda mais no meu caso, que me colocava na frente do carro e não lateral, próximo à janela do motorista (atenção futuros calouros, fica aí a dica pra futuros pedágios!).

Essa é uma das muitas histórias que aconteceram naquela época. Se eu fosse contar todas aqui, precisaria de um post inteiro pra tal, o que não seria o caso, né? Enfim, o que me lembro daquela época saudosa é que o Ricardo era um grande amigo e ótimo parceiro pra tomar uma famosa breja.

O tempo foi passando. E como diz o dito popular, cada um foi tomando o seu rumo. Pessoas queridas que se vão, pessoas queridas que aparecem. Assim é a vida e com o Dudé e o Ricardo não poderia ser diferente.

Fui trilhando minha estrada de pedras, seguindo minha carreira como músico. Veio a Internet, depois o Orkut, o Facebook, o Twitter e todas essas tranqueiras internéticas que reclamamos tanto, mas não conseguimos nos livrar. De repente, na velocidade de um clique no mouse, pessoas que eu não via há muito tempo começaram a entrar em contato. E o Ricardo estava entre esses amigos que tive o privilégio de reencontrar.

No primeiro contato, começaram as perguntas inevitáveis: "cara, como você está? O que tem feito da vida?" e por aí vai. Foi quando soube que meu amigo dos tempos de pedágio da escola havia se tornado fotógrafo.... E um senhor fotógrafo.



Logo de cara, o Ricardo me convidou pra participar de um de seus projetos chamado Projeto Malocchio.


Pra quem não sabe, e vou resumir aqui porque a historia é muito longa: Malocchio é aquele símbolo que fazemos com a mão, ao assistirmos um show de Heavy Metal, o famoso "chifrinho". class="Apple-style-span">
Nossa, topei no ato! E começamos a discutir uma possível data pra fazermos as fotos que estivesse de acordo com nossas agendas (e antes quealguém pergunte "cacete, como é que o Dudé fez o Malocchio?" eu sugiro prestar atenção na foto acima).

Enquanto ficávamos procurando brechas nas respectivas agendas, eu dei a notícia pra Daiane Lopes que havia reencontrado um amigo de infância depois de muito tempo. Como a Daiane já havia feito alguns trabalhos como modelo fotográfico, pensei que seria muito legal ela fazer parte do Projeto Malocchio também.

Me lembro que marcamos a tão esperada sessão de fotos aqui na minha casa, bem no dia em que a Dudé Band faria o show no Vale do Anhangabaú (aliás, Dudé Band ganhará um post aqui em breve). Fizemos as fotos pela manhã, antes de irmos pro show.

Como já era de se esperar, esse foi o momento de colocarmos os papos em dia, eu e o Ricardo. Fora que também o meu brother também teve oportunidade de conhecer a Daiane Lopes.

Conversávamos sobre as idas e vindas, ascenções e quedas da vida. Ou seja episódios que geralmente fazem parte da vida de todos nós. Vendo até do ponto de vista filosófico, a conclusão que chegamos naquele papo foi que pra qualquer pessoa nesse mundinho de meu Deus só resta correr atrás da própria felicidade. Como é fácil de se notar, fomos bem fundo nos pensamentos naquele dia.

E foi em cima desse raciocínio que o Ricardo Calabro pensou num novo projeto que entitulamos "Diferenças?".

Pois é, o nome é escrito exatamente dessa forma: entre aspas e com um ponto de interrogação. A idéia era questionar que raio de diferença é essa, que pesa tanto pra alguns, que tanto gera desconfiança e intolerância,.

No final das contas, não somos todos seres humanos dentro da nossa própria individualidade?


Acreditando naquela velha máxima de que uma imagem vale mais que mil palavras, precisávamos escolher essa imagem à dedo. E a escolha mais óbvia foi a modelo Daiane Lopes, modelo fotográfica que tem paralisia cerebral (entenderam por que a citei no texto lá em cima, né?).

Sendo assim, marcamos uma sessão de fotos onde a estréia do projeto "Diferenças?" seria com o pé direito: o mais novo book da Daiane, algo que ela não fazia desde 2009. Porém, pra tal façanha, precisávamos de um local pra fazer as fotos.



Foi nesse momento que contamos com o apoio de pessoas iluminadas como meu parceiro na DUDÉ BAND, Bruno Vittoruzzo que cedeu seu estúdio como cenário pras fotos e das lindas e poderosas Camila Moura, que cuidou da maquiagem da Daiane e Andreza Maroneze que, na condição de fisioterapeuta, prestou uma ajuda imprescindível pra nossa modelo naquela noite.

É como eu sempre digo: existem aqueles que fazem e aqueles falam. Aos que apenas falam, nós ouvimos e ouvimos e ouvimos até o nosso saco estourar e aos que fazem, só nos resta aplaudir. É por isso que os aplausos devem ir pra essa turminha que citei aqui, pois eles fizeram e maravilhosamente bem, sem a necessidade de se colocar num discurso demagogo e falso-moralista sobre o peso que as pessoas com deficiência carregam frente ao alcance de seus objetivos perante à sociedade. E isso se deve a um único ingrediente: paixão por fazer aquilo que acreditam ser correto. Só isso! O resto é encheção de linguiça!


Tamanha dedicação só poderia resultar num trabalho que ficou extraordinário, ao ponto de se tornar matéria na revista REAÇÃO no primeiro semestre desse ano.

O projeto "DIFERENÇAS?" serviu pra dar um novo enfoque sobre não só o como enxergamos as pessoas com deficiência, mas nos deu uma base de reflexão sobre como enxergamos a sí mesmos, independente de sermos deficientes, ou não.

Daiane Lopes reiniciou sua carreira de modelo depois disso, participando de dois novos books, um desfile na REATECH, e um site e Making Of produzido pela produtora Oficina da Arte que também ganhará um capítulo à parte em breve aqui. Era o "Diferenças?" dando as suas bençãos.

Quem diria que algo de tamanha magnitude poderia tomar forma a partir de uma amizade de colégio.... e de corações regados com ideais que vão muito além do apenas figurar como "mártir da inclusão social da pessoa com deficiência". Pra nós fazermos esse trabalho, bastou apenas um fotógrafo, dois músicos, uma modelo, uma fisioterapeuta, uma estudante de jornalismo... e nenhuma demagogia!