domingo, 5 de fevereiro de 2012

HOME STUDIO

"Gambiarra". Esse é o termo que pra muitos músicos poder ser o Céu... ou o Inferno.

Em muitas ocasiões, uma gambiarra pode se tornar sinônimo de solução de um problema, ou a piora de uma situação. No meu caso, uma gambiarra em particular, se tornou a ponte pra algo muito maior.

Na época em que eu fazia aulas de canto com Nando Fernandes, além do trabalho de refinamento técnico, feito através de vocalizes, meu grande brother tinha o cuidado de fazer com que eu aplicasse na prática o que eu havia adquirido de bagagem técnica, me fazendo trabalhar alguma música da qual eu procurava cantar o que havia num disco, ou cd, e a "gravina" era registrada em fita cassete (só lembrando que eu estou falando de 1994, ano em que nem sequer sonhávamos com Internet, MP-03, etc).

Com passar do tempo, e com o advento da nossa velha amiga World Wide Web, começamos a ter acesso a algumas backingtracks, gravações instrumentais que não possuíam a voz principal, baixadas através do famoso Napster. Esses playbacks se tornaram peças fundamentais no mosaico do curso do Nando. Algo que nos dava uma ótima bagagem prática.

Quando comecei a dar aulas, achei interessante utilizar o mesmo método do Nando, com o seu total consentimento.
Só que a questão era que eu não tinha como gravar os meus alunos. O que acabei fazendo? Gambiarra, é claro!

No início da minha carreira como professor, eu utilizava como sala de aula, o quartinho de empregada do apartamento onde moro. Em virtude do local ser extremamente espaçoso e confortável, aliado aos puxões de orelha que sempre dei nos meus alunos quando fazem algo de errado, o singelo cubículo ganhou o simpático apelido de "A Masmorra". A Masmorra podia não ser lá essas coisas, mas alguns vocalistas que são aplaudidos hoje na noite paulistana saíram dela. Isso que importa.

Bom, voltando ao assunto, tratei rapidamente de preencher essa lacuna no meu curso de canto utilizando um micro-system e um microfone Lesson, desses de palco. O pobrezinho era tão velho, mas tão velho, que mesmo a gente somando a idade de todos que lêem esse blog, não chegaríamos sequer próximos das décadas de estrada desse meu velho amigo. Porém, era o que eu tinha na época que pra usar.

Ah, quase esqueci de outro detalhe: eu gravava os playbacks em cd e registrava a performance dos meus alunos em fita cassete, com o microfone plugado direto no aparelho de som portátil. Mais na unha que isso, impossível!

Mesmo assim, consegui dar aulas pra muitos alunos nessa época com grandes resultados. Mas eu tinha consciência de que eu precisaria melhorar meu "equipamento" o mais breve possível.

Quando minha irmã mais nova casou, e desocupou o quarto maior da casa, eu pude sair da minha velha Masmorra pra um local com mais espaço (é isso mesmo que você tá pensando! Eu dormia no quartinho de empregada que também era minha sala de leitura, onde eu me debruçava nos meus livros sobre aviação e música, além de ser também o meu local de trabalho). Isso me deu oportunidade para adquirir novos equipamentos.

O computador que ficava na sala, se mudou pro quarto maior que agora me pertencia. E finalmente, pude comprar uma mesa de som de 4 canais que era ligada diretamente na saída do microfone do micro. O microfone continuava sendo o mesmo Lesson jurássico.

As gravações continuaram simples, mas agora, eu podia gravar meus alunos no computador, onde dava pra fazer o mínimo de mixagem usando o Audacity, editor de áudio gratuíto. Isso foi no período de 2004 a 2008.

Em 2008, com uma graninha juntada à duras penas, consegui comprar meu primeiro microfone condenser, uma mesa de 8 canais com efeito embutido, uma interface pra ligar a mesa ao computador. Só o programa que continuou sendo o Audacity pois eu não tinha um computador potente o suficiente pra aguentar um Sonar, ou Pró-Tools.

Mesmo assim, houve um salto de qualidade nas gravações, comparadas às outras feitas de forma precária. E isso abriu espaço pra alguns experimentos. Um deles foram as gravações feitas com o tecladista J.P. que tocava comigo nos Easy Rockers, banda já citada nesse blog.


Nesse período, decidi tornar o meu home studio não só um instrumento de desenvolvimento, mas um grande incentivo pros meus alunos. Foi nessa época que criei o My Space Hall Of Fame - alunos do Dudé.

A idéia era a seguinte: o aluno que se empenhasse, que buscasse sempre seu desenvolvimento técnico e musical, no momento em que ele fizesse o que cordialmente chamamos de A GRAVAÇÃO, como prêmio, ele teria a mesma divulgada no Hall Of Fame. Era muito legal testemunhar a satisfação de muitos deles quando eu anunciava: "Essa aqui vai pro My Space".

Mas a coisa toda não ficava só nisso. O Hall Of Fame era divulgado através dos meus contatos. Isso permitiu que muitos dos meus alunos encontrassem a tão sonhada banda pra, finalmente, arrasar por aí noite afora. Me lembro bem dos e-mails enviados pelas bandas requisitando algum membro do nosso seleto grupo.

O Hall Of Fame também chamou a atenção de outros vocalistas. Cantores que já possuiam uma carreira, ou estavam começando uma, ouviam as gravações dos meus alunos e se interessavam em gravar comigo, com direito a receber orientações minhas durante as sessões pra que o máximo de suas vozes fossem aproveitadas. Foi o começo da minha carreira como produtor e orientador vocal.

Entre esse pessoal, gosto de ressaltar minha grande amiga Anete Santa Lúcia, dona de uma voz maravilhosa e de um carisma tão grande quanto. Tive o privilégio de ter produzido um EP dessa grande amiga, onde gravamos Still Got The Blues em dueto.

Anete Santa Lúcia atualmente tem seu programa chamado Rock On The Road, num canal de TV via Internet. Se vocês adivinharem aonde foi gravado o áudio do tema de abertura do programa dela... Não precisa dizer, né?

O tempo foi passando, os equipamentos eram trocados por outros melhores e, consequentemente, a qualidade subiu. Mesa de 16 canais ligada num computador dedicado só pra produção, e com Sonar instalado foram alguns desses passos adiante que tomei com relação ao meu home studio.

A coisa toda tomou uma proporção tal que em 2010, recebi um convite pra ser entrevistado pela revista Incluir. A idéia era fazer uma matéria sobre a minha carreira como professor de canto e produtor.

Tive a honra de receber na minha casa, a jornalista Julliana Reis de Sá e o fotógrafo Thiago Henrique da Silva. Esses dois me deram um presentão: uma matéria na Incluir de quatro páginas com direito à participação especial do meu aluno Carlos Vinícius.

Atualmente, meu home studio continua sendo uma importante ferramenta de desenvolvimento musical, tanto pra mim, quanto pros meus alunos. Além de alguns clientes que me procuram pra gravar e produzir demos dos mais variados estílos musicais.

Pois é, nada mau pra algo que começou como uma gambiarra!