O termo "deu um giro de 360 graus na vida" muitas vezes tem ligação com o fato de não saírmos do lugar, como se nossas vidas começassem e terminassem num mesmo ponto. No meu caso, existe um capítulo da minha história que começa e termina em um mesmo denominador comum, mas não me incomoda em nada: o teatro.
Se eu não estiver enganado, o ano era 2004. Era um domingo (disso, me lembro bem), eu estava pegando o metro pra ir ao ensaio do ASILO 70. Eu havia caído de balada na noite anterior, estava numa ressaca daquelas e, por essa razão, meu humor não era dos melhores naquele dia.
Fiz baldeação na estação Sé, em direção à Ana Rosa, onde o Edu, baixista do ASILO 70 na época, me dava uma carona até o estúdio onde ensaiávamos. Entrei em um dos vagões, sentei na cadeira mais próxima da porta quase desabando de tanto sono. Eu tinha a intenção de tirar um belo cochilo até chegar ao meu destino, só pra tentar me recuperar um pouco da noite anterior.
Eu bem que tentei tirar uma soneca, embalado pelo balanço do metro ao parar nas estações. O problema é que tinha um sujeito sentado na minha frente que não parava de olhar pra mim. Normalmente, eu não me incomodo das pessoas me olharem na rua. Tenho uma certa diferença física da maioria que chama mesmo a atenção, eu sei disso. Isso nunca foi problema pra mim.
Só que o cara olhava tanto pra mim, que cheguei a perder o sono. Ainda pensei: "puta merda. Ainda por cima, um macho que não pára de me encarar. Podia ser a Juliana Paes, pelo menos!". Mesmo assim, não achei necessidade de criar um cavalo-de-batalha por causa disso, tinha outras preocupações em mente. Como o ensaio, por exemplo.
Foi nesse instante que percebi que o sujeito estava numa cadeira de rodas e não possuia uma das pernas. Ele trajava uma camiseta preta escrito NOTURNO na altura do peito. Até aí, não é porque o cara tá numa cadeira de rodas que vai se justificar o fato dele me encarar a viagem toda, mas enfim...
Cheguei na estação Ana Rosa e tratei de descer do vagão. Eu estava na plataforma, indo em direção às escadas, quando ouvi uma voz logo atrás de mim: "ei, amigo. Posso falar com você um instante?"
Eu parei de andar, me virei e dei cara com o tal sujeito da cadeira de rodas. Eu já tava pra manda-lo praquele lugar, mas em virtude da sua voz tranquila, resolvi conversar com ele.
- Desculpa eu atrapalhar o seu dia, mas é que a gente veio no mesmo vagão e eu pensei: esse cara deve gostar de teatro. Então, eu te pergunto: você gosta de teatro?
Quando ele me falou isso, fiquei sem saber se o mandava à merda, ou se respondia que gostava de teatro. Como ele foi muito educado comigo, resolvi pegar leve:
- Cara, gosto bastante de teatro, sim. Por quê?
- É que eu faço parte de um grupo de teatro musical. Faço um curso na Oficina dos Menestréis, você conhece?
- Não, brother. Não conheço, não - respondi.
- Então, a Oficina dos Menestréis tem um curso de teatro direcionado para pessoas com deficiência física chamado Projeto Cadeirante. É um grupo formado praticamente só por usuários de cadeira de rodas. Na verdade, o Deto Montenegro, que é nosso diretor, adaptou o curso de teatro dele para a realidade do deficiente.
Eu ouvi tudo aquilo atento e o meu novo amigo continuou:
- Estamos apresentando um espetáculo chamado NOTURNO que é o resultado desse curso e estamos em final de temporada. Você não gostaria de assistir?
- Cara, eu adoraria. Achei muito interessante, de coração mesmo. Só que eu to com compromisso hoje e o pessoal da minha banda vai me matar porque eu to atrasado.
- Você toca numa banda? - indagou o sujeito da cadeira de rodas e cabelos grisalhos - qual instrumento?
- Sou vocalista. Canto na noite já tem um bom tempo e dou aulas de canto também. - respondi.
- Cara, que demais! Agora que você tem que conhecer nosso trabalho, pois atuamos com teatro musical. Tenho certeza que você vai curtir pra caramba.
Ao terminar de falar, ele puxou uma bolsa de tecido escuro que estava atrás da sua cadeira de rodas. De dentro dela, tirou dois bilhetes.
- Olha, esses aqui são ingressos pro próximo fim de semana. Serão as duas últimas apresentações da temporada. Você prefere pro sábado, ou domingo?
Parei pra pensar qual dia ficaria melhor pra mim e respondi:
- Me dá ingresso pro domingo. Sábado to com show pra fazer.
- Então, tá. Vou te dar dois bilhetes, caso queira levar mais alguém. Como você é músico, vou deixar os ingressos na faixa.
- Caramba, valeu mesmo. Como você se chama?
- Meu nome é Adilson. E o seu?
- Me chamo Eduardo, mas todo mundo me chama de Dudé.
- Prazer, Dudé. Conto com a sua presença lá, heim? Posso pegar seu telefone?
Normalmente, não sou de passar o telefone pra primeira pessoa que eu conheço, mas percebi logo de cara que o Adilson se tratava de uma pessoa de confiança. Mesmo assim, peguei o telefone dele por via das dúvidas.
- Cara, preciso ir agora que eu to super atrasado! - disse pro Adilson, já me encaminhando pra escada que levava pra fora da plataforma.
- Beleza, meu amigo. Te vejo lá no domingo, ok?
Segui pra fora da estação Ana Rosa e me encontrei com o Edu que já me aguardava pra irmos juntos ao ensaio da banda.
Na semana seguinte, guardei os ingressos que o Adilson me deu, ainda pensando se ia assistir ao espetáculo, ou não. Foi então que numa quarta, tarde da noite, o telefone tocou. Era o Adilson outra vez:
- Então, cara. Você vai, né?
- Brother, eu te disse que eu vou. Não esquenta. - respondi a ele, rindo da ansiedade do cara.
- Legal! É que os ingressos que te dei, tive que bancar do meu bolso. Então, não vai me dar prejuizo, heim? - Disse o Adilson também rindo do outro lado da linha.
Quando desligamos o telefone, logo pensei: "cacete, se eu não for nesse raio dessa peça, esse doido vai ficar me ligando pra me cobrar. Melhor, eu ir".
Chegou o domingo e eu me dirigi até à estação Ana Rosa, na intenção de chegar no teatro Dias Gomes. Chegando lá entrei numa galeria e me dirigi até à recepção do teatro. Entreguei meu ingresso ao recepcionista e subi uma escadaria enfeitada com velas nos degraus, pra depois descobrir que havia um acesso por rampa (bem-feito. Quem mandou eu não perguntar se havia acesso por rampa, ou não?). Me ajeitei em uma das cadeiras e aguardei o início do espetáculo.
Depois de uma breve explicação do Deto Montenegro, diretor da Cia dos Menestréis, sobre o que se tratava a peça, todas as luzes do recinto se apagaram e o público começou a gritar, numa reação que eu só havia visto num show de Rock. Aliás, cada cena era finalizada com aplausos sempre intensos. E não era pra menos, NOTURNO sempre foi um musical de tirar o fôlego!
Terminado o espetáculo, as luzes se acenderam e o público teve livre acesso ao palco pra conversar com o elenco. Foi quando me encontrei com meu amigo Adilson:
- E aí, meu amigo? Gostou? - perguntou ele.
- Cara, se eu gostei? Achei o máximo! Todos vocês estão de parabéns. - respondi empolgado.
- Então, já imaginou você aqui junto com a gente? - disse o meu brother como se estivesse a prever o futuro.
- Ah, colega. Meu palco é outro, mas agradeço o convite mesmo assim.
Em meio a todo aquele burburinho, pessoas indo e vindo, cumprimentos, risadas e fotos tiradas com o pessoal do elenco, comecei a perceber um detalhe que tive que comentar com o Adilson:
- Cara, vocês estão bem servidos de mulher, heim? Só tem gata por aqui.
O Adilson riu e me disse:
- Olha, hoje foi o encerramento da temporada. Por causa disso, vai ter uma festa na casa de uma das cantoras do grupo. Você não quer ir com a gente?
Nem pensei duas vezes na resposta:
- Se tiver uma carona pra mim, eu quero.
- Beleza, vou ver com o pessoal. Pera aí, só um minuto.
Nesse meio tempo, nós saimos por um acesso que ficava ao lado do palco e que dava no andar de cima da galeria, onde se encontra o Dias Gomes. Descemos por uma rampa em caracol, onde o pessoal de cadeira de rodas adorava apostar corrida, e chegamos até o andar térreo que dá acesso pra rua.
Na entrada da galeria, já na calçada, o Adilson chamou uma moça de longos cabelos castanho-escuros que estava a ajeitar uma cadeira de rodas dentro do porta-malas de um carro:
- Mary! Vem aqui, por favor?
A moça se aproximou e o Adilson tratou de nos apresentar:
- Dudé, essa é a Maristela. Mary, tem vaga no seu carro pra levar um fã da gente até a nossa festa?
- Lógico. A única que vai comigo é a Leandra. Então tem vaga, sim. Pode vir, vai ser um prazer.
Foi então que eu conheci as três pessoas que foram responsáveis por me envolver com o teatro.
Durante o trajeto, Maristela e Leandra trataram de me interrogar o máximo que podiam: "quem é você?", "o que faz da vida?", "você curtiu a peça?" e por aí vai. Mas tudo regado a muita descontração e bom humor.
Aliás, descontração e bom humor foi o que não faltou naquela festa. Me lembro que cheguei em casa por volta das seis da manhã, mas havia curtido muito conhecer o novo pessoal.
No dia seguinte, meu telefone tocou. Dessa vez era a Maristela me convidando pra sair. Bom, o resumo da ópera é que começamos a namorar.
No primeiro mês de namoro, tudo correu como de costume: nós saíamos, iamos pra alguma balada, barzinho, cinema, etc. Até que, por volta de junho, se deu início a uma nova temporada do NOTURNO. Foi quando percebi que pra namorar uma atriz de teatro, você tem que bater ponto... no teatro!
Eu sempre me encontrava com a Mary nos fins de semana, após os ensaios. Então sempre marcávamos de nos encontrarmos às portas da galeria onde fica o Dias Gomes. Quando havia alguma temporada, eu assistia a quase todos os espetáculos. Moral da história: decorei o NOTURNO de trás pra frente, de tanto assistir. Apesar que isso também não se tornou um sacrifício, pois foi nessa época que comecei a fazer mais amizades com outros integrantes do elenco.
Numa bela noite, após assistir o NOTURNO pela milésima vez, todo o elenco do Projeto Cadeirante foi reunido em cima do palco pra uma entrevista. Durante o bate-papo que a galera teve com uma jornalista, ouvi o Deto anunciar que estava sempre abrindo turmas pros cursos com pessoas sem deficiência. Foi quando me empolguei.
Cheguei no Deto, que já me conhecia (afinal, quem não conhecia o namorado da Maristela que não perdia nenhuma sessão do NOTURNO?), e perguntei quando exatamente as vagas seriam abertas, pois eu queria fazer o curso. Então, o Deto me respondeu:
- Dudé, por que você não participa da montagem do próximo espetáculo que essa galera vai apresentar? Você já é conhecido do pessoal mesmo...
- Brother, todos aqui já fizeram o curso e são atores experientes, eu não sei nada. Será que não vou atrapalhar?
- Vai nada, brother. Você vai se divertir pra caramba e vai poder dar uns amassos na namorada sempre que quiser porque vai um tá pertinho do outro. - disse o Deto com um largo sorriso no rosto.
Como curti muito a idéia e resolvi topar o convite. No ensaio seguinte, o primeiro pra montagem do novo espetáculo, lá estava eu com aquele clássico semblante do
"o que foi que eu vim fazer aqui?". Nem precisa dizer que meu primeiro teste foi um fiasco total.
Mesmo assim, eu fui encorajado a voltar por um outro cara que depois, se transformaria em outro grande brother. Seu nome: Paulinho Dias.
- Cara, desanima, não. O primeiro ensaio é assim mesmo, tenta outra vez semana que vem. -disse o Paulinho me encorajando.
Então, eu fui... e acabei ficando. Só que eu não era o único novato no grupo. Junto comigo, vieram os deficientes visuais pra completar o elenco.
Esse é o espírito do menestrél: não importa se você é baixo, ou alto; gordo, ou magro; ou se anda de cadeira de rodas, muletas, mancando; ou se você não enxerga. Na verdade, só importa uma coisa: se você carrega a arte no seu coração e espírito.
E arte, na Oficina dos Menetréis, é algo levado tão a sério que é necessário ter disciplina. E não pode ser de outra forma.
A cobrança sempre foi muito forte dentro do teatro Dias Gomes. Mas de que adianta ter potencial se não se é cobrado? Nós só temos uma noção clara das nossas capacidades artísticas quando somos cobrados. Afinal, o público não merece menos do que a total entrega do ator. Essa filosofia, eu já havia aprendido com meu mestre Nando Fernandes. Sendo assim, o Dias Gomes foi se tornando, aos poucos, no meu segundo templo sagrado.
A peça que estávamos ensaiando na época era uma comédia musical chamada GOOD MORNING SÃO PAULO. Bom, achar veia cômica em mim, não é difícil. Quem me conhece, sabe disso.
Com a minha veia pra comediante pulsando a todo vapor, ganhei um baita de um presente: contra-cenar com Paulinho Dias, um ator por excelência. E a montagem de cada cena se tornava num motivo pra soltar a imaginação, seguida de uma bela gargalhada.
Foi assim na famosa cena do E.T. onde ensaiei a primeira vez com o Paulinho e o Adilson aqui em casa. Já logo na primeira vez que a fizemos, minha mãe quase teve um troço de tanto rir.
E assim seguiu a montagem da peça, com os laços de amizade entre o elenco se estreitando cada vez mais, até o dia da grande estréia.
Pra mim, foi uma experiência única. Eu já subia em palcos desde os meus 17 anos, mas nunca daquela forma. Foi simplesmente apaixonante!
O tempo foi passando e a primeira temporada se foi. E veio a segunda, a terceira e por aí vai.... Me apresentei com o pessoal em Santo André e São Carlos.
Nessa apresentação de São Carlos, deixamos pra trás uma São Paulo mergulhada no caos dos ataques do PCC que enchiam os telejornais com notícias assustadoras. Mesmo assim, fomos em direção ao interior. A trupe não parava nunca.
Nessa época, eu tive uma notícia boa e outra, ruim: a boa foi que nós haviamos deixado de ser um grupo de estudo, pra nos tornarmos a Cia Mix Menestréis. A notícia ruim veio por intermédio da minha perna mecânica que estava no limite do seu uso.
As minhas idas à oficina ortópedica se tornaram cada vez mais frequentes e as notícias que os protéticos me davam eram desanimadoras, pois minha prótese não estava aguentando o tranco.
Quando fiz uma apresentação do GOOD MORNING SÃO PAULO MIXTUREBA com o pé da minha prótese praticamente pendurado, vi que era hora de dar um tempo. Não adiantava tampar o Sol com a peneira.
Passado um ano após eu ter saído da Cia Mix Menestréis, e de restringir ao máximo o uso da minha prótese, consegui a doação de outra perna mecânica através do HC. Porém, eu sentia falta de um outro tipo de palco. Precisava ter uma guitarra elétrica rasgando junto com a minha voz. Senti a necessidade de voltar a estar à frente de uma banda outra vez.
Quanto à Cia Mix Menestréis ficaram as amizades, a cumplicidade de dividir o palco com pessoas tão especiais (especiais pelo seu talento).
Só que a história não termina aí. Em 2009, ingressei na ABTM (Academia Brasileira de Teatro e Musical), ganhei a oportunidade de interpretar um trecho de uma das minhas óperas-rock preferidas: Jesus Christ Superstar, dentro do espetáculo Pocket Broadway.
Pois é. Em algumas ocasiões, nossas vidas giram 360 graus e nos vemos fazendo o que faziamos há um tempo atrás. Em alguns momentos, mas só aqueles verdadeiramente especiais, nos vemos numa mesma história, só que contada de forma diferente... Graças a Deus!