terça-feira, 24 de novembro de 2009

TEATRO


O termo "deu um giro de 360 graus na vida" muitas vezes tem ligação com o fato de não saírmos do lugar, como se nossas vidas começassem e terminassem num mesmo ponto. No meu caso, existe um capítulo da minha história que começa e termina em um mesmo denominador comum, mas não me incomoda em nada: o teatro.

Se eu não estiver enganado, o ano era 2004. Era um domingo (disso, me lembro bem), eu estava pegando o metro pra ir ao ensaio do ASILO 70. Eu havia caído de balada na noite anterior, estava numa ressaca daquelas e, por essa razão, meu humor não era dos melhores naquele dia.
Fiz baldeação na estação Sé, em direção à Ana Rosa, onde o Edu, baixista do ASILO 70 na época, me dava uma carona até o estúdio onde ensaiávamos. Entrei em um dos vagões, sentei na cadeira mais próxima da porta quase desabando de tanto sono. Eu tinha a intenção de tirar um belo cochilo até chegar ao meu destino, só pra tentar me recuperar um pouco da noite anterior.

Eu bem que tentei tirar uma soneca, embalado pelo balanço do metro ao parar nas estações. O problema é que tinha um sujeito sentado na minha frente que não parava de olhar pra mim. Normalmente, eu não me incomodo das pessoas me olharem na rua. Tenho uma certa diferença física da maioria que chama mesmo a atenção, eu sei disso. Isso nunca foi problema pra mim.

Só que o cara olhava tanto pra mim, que cheguei a perder o sono. Ainda pensei: "puta merda. Ainda por cima, um macho que não pára de me encarar. Podia ser a Juliana Paes, pelo menos!". Mesmo assim, não achei necessidade de criar um cavalo-de-batalha por causa disso, tinha outras preocupações em mente. Como o ensaio, por exemplo.

Foi nesse instante que percebi que o sujeito estava numa cadeira de rodas e não possuia uma das pernas. Ele trajava uma camiseta preta escrito NOTURNO na altura do peito. Até aí, não é porque o cara tá numa cadeira de rodas que vai se justificar o fato dele me encarar a viagem toda, mas enfim...

Cheguei na estação Ana Rosa e tratei de descer do vagão. Eu estava na plataforma, indo em direção às escadas, quando ouvi uma voz logo atrás de mim: "ei, amigo. Posso falar com você um instante?"


Eu parei de andar, me virei e dei cara com o tal sujeito da cadeira de rodas. Eu já tava pra manda-lo praquele lugar, mas em virtude da sua voz tranquila, resolvi conversar com ele.


- Desculpa eu atrapalhar o seu dia, mas é que a gente veio no mesmo vagão e eu pensei: esse cara deve gostar de teatro. Então, eu te pergunto: você gosta de teatro?


Quando ele me falou isso, fiquei sem saber se o mandava à merda, ou se respondia que gostava de teatro. Como ele foi muito educado comigo, resolvi pegar leve:


- Cara, gosto bastante de teatro, sim. Por quê?


- É que eu faço parte de um grupo de teatro musical. Faço um curso na Oficina dos Menestréis, você conhece?


- Não, brother. Não conheço, não - respondi.


- Então, a Oficina dos Menestréis tem um curso de teatro direcionado para pessoas com deficiência física chamado Projeto Cadeirante. É um grupo formado praticamente só por usuários de cadeira de rodas. Na verdade, o Deto Montenegro, que é nosso diretor, adaptou o curso de teatro dele para a realidade do deficiente.


Eu ouvi tudo aquilo atento e o meu novo amigo continuou:


- Estamos apresentando um espetáculo chamado NOTURNO que é o resultado desse curso e estamos em final de temporada. Você não gostaria de assistir?


- Cara, eu adoraria. Achei muito interessante, de coração mesmo. Só que eu to com compromisso hoje e o pessoal da minha banda vai me matar porque eu to atrasado.


- Você toca numa banda? - indagou o sujeito da cadeira de rodas e cabelos grisalhos - qual instrumento?


- Sou vocalista. Canto na noite já tem um bom tempo e dou aulas de canto também. - respondi.


- Cara, que demais! Agora que você tem que conhecer nosso trabalho, pois atuamos com teatro musical. Tenho certeza que você vai curtir pra caramba.


Ao terminar de falar, ele puxou uma bolsa de tecido escuro que estava atrás da sua cadeira de rodas. De dentro dela, tirou dois bilhetes.


- Olha, esses aqui são ingressos pro próximo fim de semana. Serão as duas últimas apresentações da temporada. Você prefere pro sábado, ou domingo?


Parei pra pensar qual dia ficaria melhor pra mim e respondi:


- Me dá ingresso pro domingo. Sábado to com show pra fazer.


- Então, tá. Vou te dar dois bilhetes, caso queira levar mais alguém. Como você é músico, vou deixar os ingressos na faixa.


- Caramba, valeu mesmo. Como você se chama?


- Meu nome é Adilson. E o seu?


- Me chamo Eduardo, mas todo mundo me chama de Dudé.


- Prazer, Dudé. Conto com a sua presença lá, heim? Posso pegar seu telefone?


Normalmente, não sou de passar o telefone pra primeira pessoa que eu conheço, mas percebi logo de cara que o Adilson se tratava de uma pessoa de confiança. Mesmo assim, peguei o telefone dele por via das dúvidas.


- Cara, preciso ir agora que eu to super atrasado! - disse pro Adilson, já me encaminhando pra escada que levava pra fora da plataforma.


- Beleza, meu amigo. Te vejo lá no domingo, ok?


Segui pra fora da estação Ana Rosa e me encontrei com o Edu que já me aguardava pra irmos juntos ao ensaio da banda.


Na semana seguinte, guardei os ingressos que o Adilson me deu, ainda pensando se ia assistir ao espetáculo, ou não. Foi então que numa quarta, tarde da noite, o telefone tocou. Era o Adilson outra vez:


- Então, cara. Você vai, né?


- Brother, eu te disse que eu vou. Não esquenta. - respondi a ele, rindo da ansiedade do cara.


- Legal! É que os ingressos que te dei, tive que bancar do meu bolso. Então, não vai me dar prejuizo, heim? - Disse o Adilson também rindo do outro lado da linha.


Quando desligamos o telefone, logo pensei: "cacete, se eu não for nesse raio dessa peça, esse doido vai ficar me ligando pra me cobrar. Melhor, eu ir".


Chegou o domingo e eu me dirigi até à estação Ana Rosa, na intenção de chegar no teatro Dias Gomes. Chegando lá entrei numa galeria e me dirigi até à recepção do teatro. Entreguei meu ingresso ao recepcionista e subi uma escadaria enfeitada com velas nos degraus, pra depois descobrir que havia um acesso por rampa (bem-feito. Quem mandou eu não perguntar se havia acesso por rampa, ou não?). Me ajeitei em uma das cadeiras e aguardei o início do espetáculo.


Depois de uma breve explicação do Deto Montenegro, diretor da Cia dos Menestréis, sobre o que se tratava a peça, todas as luzes do recinto se apagaram e o público começou a gritar, numa reação que eu só havia visto num show de Rock. Aliás, cada cena era finalizada com aplausos sempre intensos. E não era pra menos, NOTURNO sempre foi um musical de tirar o fôlego!


Terminado o espetáculo, as luzes se acenderam e o público teve livre acesso ao palco pra conversar com o elenco. Foi quando me encontrei com meu amigo Adilson:


- E aí, meu amigo? Gostou? - perguntou ele.


- Cara, se eu gostei? Achei o máximo! Todos vocês estão de parabéns. - respondi empolgado.


- Então, já imaginou você aqui junto com a gente? - disse o meu brother como se estivesse a prever o futuro.


- Ah, colega. Meu palco é outro, mas agradeço o convite mesmo assim.


Em meio a todo aquele burburinho, pessoas indo e vindo, cumprimentos, risadas e fotos tiradas com o pessoal do elenco, comecei a perceber um detalhe que tive que comentar com o Adilson:


- Cara, vocês estão bem servidos de mulher, heim? Só tem gata por aqui.


O Adilson riu e me disse:


- Olha, hoje foi o encerramento da temporada. Por causa disso, vai ter uma festa na casa de uma das cantoras do grupo. Você não quer ir com a gente?


Nem pensei duas vezes na resposta:


- Se tiver uma carona pra mim, eu quero.


- Beleza, vou ver com o pessoal. Pera aí, só um minuto.


Nesse meio tempo, nós saimos por um acesso que ficava ao lado do palco e que dava no andar de cima da galeria, onde se encontra o Dias Gomes. Descemos por uma rampa em caracol, onde o pessoal de cadeira de rodas adorava apostar corrida, e chegamos até o andar térreo que dá acesso pra rua.


Na entrada da galeria, já na calçada, o Adilson chamou uma moça de longos cabelos castanho-escuros que estava a ajeitar uma cadeira de rodas dentro do porta-malas de um carro:


- Mary! Vem aqui, por favor?


A moça se aproximou e o Adilson tratou de nos apresentar:


- Dudé, essa é a Maristela. Mary, tem vaga no seu carro pra levar um fã da gente até a nossa festa?


- Lógico. A única que vai comigo é a Leandra. Então tem vaga, sim. Pode vir, vai ser um prazer.


Foi então que eu conheci as três pessoas que foram responsáveis por me envolver com o teatro.


Durante o trajeto, Maristela e Leandra trataram de me interrogar o máximo que podiam: "quem é você?", "o que faz da vida?", "você curtiu a peça?" e por aí vai. Mas tudo regado a muita descontração e bom humor.


Aliás, descontração e bom humor foi o que não faltou naquela festa. Me lembro que cheguei em casa por volta das seis da manhã, mas havia curtido muito conhecer o novo pessoal.


No dia seguinte, meu telefone tocou. Dessa vez era a Maristela me convidando pra sair. Bom, o resumo da ópera é que começamos a namorar.


No primeiro mês de namoro, tudo correu como de costume: nós saíamos, iamos pra alguma balada, barzinho, cinema, etc. Até que, por volta de junho, se deu início a uma nova temporada do NOTURNO. Foi quando percebi que pra namorar uma atriz de teatro, você tem que bater ponto... no teatro!


Eu sempre me encontrava com a Mary nos fins de semana, após os ensaios. Então sempre marcávamos de nos encontrarmos às portas da galeria onde fica o Dias Gomes. Quando havia alguma temporada, eu assistia a quase todos os espetáculos. Moral da história: decorei o NOTURNO de trás pra frente, de tanto assistir. Apesar que isso também não se tornou um sacrifício, pois foi nessa época que comecei a fazer mais amizades com outros integrantes do elenco.


Numa bela noite, após assistir o NOTURNO pela milésima vez, todo o elenco do Projeto Cadeirante foi reunido em cima do palco pra uma entrevista. Durante o bate-papo que a galera teve com uma jornalista, ouvi o Deto anunciar que estava sempre abrindo turmas pros cursos com pessoas sem deficiência. Foi quando me empolguei.


Cheguei no Deto, que já me conhecia (afinal, quem não conhecia o namorado da Maristela que não perdia nenhuma sessão do NOTURNO?), e perguntei quando exatamente as vagas seriam abertas, pois eu queria fazer o curso. Então, o Deto me respondeu:


- Dudé, por que você não participa da montagem do próximo espetáculo que essa galera vai apresentar? Você já é conhecido do pessoal mesmo...


- Brother, todos aqui já fizeram o curso e são atores experientes, eu não sei nada. Será que não vou atrapalhar?


- Vai nada, brother. Você vai se divertir pra caramba e vai poder dar uns amassos na namorada sempre que quiser porque vai um tá pertinho do outro. - disse o Deto com um largo sorriso no rosto.


Como curti muito a idéia e resolvi topar o convite. No ensaio seguinte, o primeiro pra montagem do novo espetáculo, lá estava eu com aquele clássico semblante do
"o que foi que eu vim fazer aqui?". Nem precisa dizer que meu primeiro teste foi um fiasco total.


Mesmo assim, eu fui encorajado a voltar por um outro cara que depois, se transformaria em outro grande brother. Seu nome: Paulinho Dias.


- Cara, desanima, não. O primeiro ensaio é assim mesmo, tenta outra vez semana que vem. -disse o Paulinho me encorajando.


Então, eu fui... e acabei ficando. Só que eu não era o único novato no grupo. Junto comigo, vieram os deficientes visuais pra completar o elenco.


Esse é o espírito do menestrél: não importa se você é baixo, ou alto; gordo, ou magro; ou se anda de cadeira de rodas, muletas, mancando; ou se você não enxerga. Na verdade, só importa uma coisa: se você carrega a arte no seu coração e espírito.


E arte, na Oficina dos Menetréis, é algo levado tão a sério que é necessário ter disciplina. E não pode ser de outra forma.


A cobrança sempre foi muito forte dentro do teatro Dias Gomes. Mas de que adianta ter potencial se não se é cobrado? Nós só temos uma noção clara das nossas capacidades artísticas quando somos cobrados. Afinal, o público não merece menos do que a total entrega do ator. Essa filosofia, eu já havia aprendido com meu mestre Nando Fernandes. Sendo assim, o Dias Gomes foi se tornando, aos poucos, no meu segundo templo sagrado.


A peça que estávamos ensaiando na época era uma comédia musical chamada GOOD MORNING SÃO PAULO. Bom, achar veia cômica em mim, não é difícil. Quem me conhece, sabe disso.


Com a minha veia pra comediante pulsando a todo vapor, ganhei um baita de um presente: contra-cenar com Paulinho Dias, um ator por excelência. E a montagem de cada cena se tornava num motivo pra soltar a imaginação, seguida de uma bela gargalhada.


Foi assim na famosa cena do E.T. onde ensaiei a primeira vez com o Paulinho e o Adilson aqui em casa. Já logo na primeira vez que a fizemos, minha mãe quase teve um troço de tanto rir.


E assim seguiu a montagem da peça, com os laços de amizade entre o elenco se estreitando cada vez mais, até o dia da grande estréia.


Pra mim, foi uma experiência única. Eu já subia em palcos desde os meus 17 anos, mas nunca daquela forma. Foi simplesmente apaixonante!


O tempo foi passando e a primeira temporada se foi. E veio a segunda, a terceira e por aí vai.... Me apresentei com o pessoal em Santo André e São Carlos.


Nessa apresentação de São Carlos, deixamos pra trás uma São Paulo mergulhada no caos dos ataques do PCC que enchiam os telejornais com notícias assustadoras. Mesmo assim, fomos em direção ao interior. A trupe não parava nunca.


Nessa época, eu tive uma notícia boa e outra, ruim: a boa foi que nós haviamos deixado de ser um grupo de estudo, pra nos tornarmos a Cia Mix Menestréis. A notícia ruim veio por intermédio da minha perna mecânica que estava no limite do seu uso.


As minhas idas à oficina ortópedica se tornaram cada vez mais frequentes e as notícias que os protéticos me davam eram desanimadoras, pois minha prótese não estava aguentando o tranco.


Quando fiz uma apresentação do GOOD MORNING SÃO PAULO MIXTUREBA com o pé da minha prótese praticamente pendurado, vi que era hora de dar um tempo. Não adiantava tampar o Sol com a peneira.


Passado um ano após eu ter saído da Cia Mix Menestréis, e de restringir ao máximo o uso da minha prótese, consegui a doação de outra perna mecânica através do HC. Porém, eu sentia falta de um outro tipo de palco. Precisava ter uma guitarra elétrica rasgando junto com a minha voz. Senti a necessidade de voltar a estar à frente de uma banda outra vez.


Quanto à Cia Mix Menestréis ficaram as amizades, a cumplicidade de dividir o palco com pessoas tão especiais (especiais pelo seu talento).


Só que a história não termina aí. Em 2009, ingressei na ABTM (Academia Brasileira de Teatro e Musical), ganhei a oportunidade de interpretar um trecho de uma das minhas óperas-rock preferidas: Jesus Christ Superstar, dentro do espetáculo Pocket Broadway.


Pois é. Em algumas ocasiões, nossas vidas giram 360 graus e nos vemos fazendo o que faziamos há um tempo atrás. Em alguns momentos, mas só aqueles verdadeiramente especiais, nos vemos numa mesma história, só que contada de forma diferente... Graças a Deus!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

ASILO 70 - TRIBUTO À FASE ÁUREA DO ROCK

Das 3.675.418 bandas que fiz parte, algumas são merecedoras de destaque por possuir ótimas histórias pra contar. O Asilo 70 foi uma dessas bandas que em seus sete anos de existência, gerou uma relação de amor e ódio entre seus integrantes.

Tudo começou no ano 2.000, quando eu estava profundamente influenciado pelas bandas da década de 70. Na época, eu percorria os bares paulistanos assistindo inúmeras bandas cover e confesso que fiquei um tanto quanto decepcionado. O motivo de tal decepção se devia ao fato que quase todas as bandas cover de São Paulo trabalhavam praticamente com o mesmo repertório. Cair de balada no Bixiga naquela época era quase como assistir a um filme da Sessão da Tarde: a gente assistia sabendo o final, pois já havia visto aquele filme dezenas de vezes.


Aquela situação me fez refletir sobre os rumos que meu próximo projeto tomaria. Eu estava determinado a colocar em prática, uma banda que possuísse em seu repertório, as músicas que eu adorava (e ainda adoro) ouvir, mas tudo feito com muito critério, respeitando a sonoridade e feeling dos maravilhosos anos 70. Só que pra isso, eu precisava fechar uma formação com o mesmo gosto musical que o meu. Então, resolvi começar a procurar pelo guitarrista.

Num papo que tive numa das minhas baladas com um dos meus amigos, recebi a indicação de um guitarrista fã de Hendrix e que adorava tocar os sons dos anos 70 com total fidelidade. No dia seguinte, resolvi ligar pra esse cara.

O nome do guitarrista era Willie e no primeiro papo que tivemos, deu pra perceber que muitas das nossas idéias batiam. Eu havia arrumado o guitarrista ideal, mas faltava o restante da banda.
O Asilo-70 foi uma banda que se tornou marco na minha carreira, por ser o meu primeiro projeto onde usei uma ferramenta chamada Internet pra ajudar a encontrar as peças que faltavam. Eu tinha contato com a famosa rede mundial de computadores na casa do Nando Fernandes que, de tempo em tempo, imprimia sites com biografias das bandas e músicos que eu curtia. Porém, após minha irmã e meu cunhado se casarem, eles moraram um período junto comigo e os meus pais. Meu cunhado estava começando a entrar no mercado de web design, ramo do qual trabalha até hoje.

Como agora tínhamos um computador conectado à Rede, comecei a me aprofundar mais nessa tal de Internet. Foi o início dos anuncios virtuais das minhas aulas de canto e da caça de classificados de músicos procurando bandas.
A Internet mostrou um lado bom, e outro ruim. A parte boa da história é que eu tinha uma resposta muito mais rápida do que os panfletos que eu espalhava pela Teodoro Sampaio quando precisava procurar músicos. O lado ruim foi a quantidade de gente que eu e o Willie tivemos que testar, sem conseguir achar os caras que faltavam pra completar a banda. Mesmo assim, continuamos a procurar.

O primeiro cara que consideramos ideal (ufa, finalmente!) foi o Johnny, baterista veterano que possuía no currículo uma passagem pela Destroyer, famosa banda cover do Kiss. Porém, tínhamos que achar um baixista pra completar a formação do novo projeto.

Depois de meses anunciando na Internet, e de testar vários baixistas sem sucesso, encontramos o cara que faltava. Seu nome: Edu J.

Uma vez fechada a formação da banda, decidimos escolher o repertório a ser trabalhado e o consenso que chegamos foi que andariamos na contra-mão do repertório da maioria das bandas cover da época. Por exemplo: quando escolhemos as músicas do Deep Purple que tocaríamos, descartamos a famosa Smoke On The Water, que 90% das bandas tocavam na época, pra tirarmos sons como Maybe I'm A Leo e Gettin' Tigher. Isso sem falar de bandas como James Gang que adorávamos tocar nos shows, entre muitas outras.

Os músicos do Asilo-70 possuiam características distintas que ajudavam a dar uma certa identidade à banda. Havia a pegada forte da bateria do Johnny, proviniente da sua influência Metal. Assim como o baixo groove e bem fraseado do Edu J. e a guitarra com som vintage do Willie. Nessa salada toda, misturava-se a minha voz fechando a demanda.


Após muito tempo de discussão sobre o nome da banda (nem vou citar algumas sugestões aqui, pois certos nomes eram absurdos. Principalmente, os que eu inventava!), chegamos à conclusão que o ideal era que o nome da banda deveria passar um recado simples e direto: gostamos de sons das antigas! Assim era batizada a ASILO 70.
Começamos a ensaiar o repertório semanalmente, num sistema que batizei irônicamente de Híbrido. Na época, havia surgido o MP-03 que podiamos baixar do computador, mas não podíamos gravar numa mídia, pois os gravadores de CD custavam muito caro na época. Fora que era um inferno baixar um único MP-03 através de conexão discada. Me lembro de uma ocasião, eu ter levado uma madrugada inteira pra baixar uma única música que eu era obrigado a colocar numa fita cassete pra levar o repertório pra todos da banda. Foram os bons tempos do Napster e do Audio Galaxy.

Fomos trabalhando repertório e então, gravamos a primeira demo pra que fosse distribuída nos bares. E então, se deu início à série de shows no Dinossauros Bar, em Pinheiros; no Willy-Willie, em Moema e Manifesto, no Itaim Bibi. Tudo corria relativamente bem, até que os conflitos começaram. Sendo assim, houve nossa primeira baixa: Johnny deixava de assumir a bateria do Asilo 70.

Lá vou eu outra vez percorrer o raio da Internet atrás de outro baterista. Em 2002, entra em cena o baterista Cuca Santos que nos acompanhou num show, digamos, pitoresco.

Edu J. fazia parte na época de um motoclube cujos integrantes nos convidaram pra tocar num bar chamado O Postinho. Esse bar possuia uma característica pouco comum: uma banheira branca, daquelas bem antigas com as pontas arredondas, e em sua extremidade encontrava-se um chuveiro preso a um cabo de vassoura. Nem é preciso dizer que tal cena fez eu exclamar um sonoro "que porra é essa?", pois eu não havia entendido nada. Mas a devida explicação viria no decorrer da noite.

Fizemos a primeira entrada do show com uma das platéias mais receptivas e simpáticas que haviamos tocado até então. Era o início da relação do Asilo-70 com a galera dos motoclubes.

Após meia hora de show, nós demos uma pausa e todas as atenções se dirigiram pra banheira. Foi quando surgiu uma morena de cabelos longos que estava vestindo um roupão. Bom, vou deixar de fazer suspense e contar logo o que aconteceu: a morena tirou o roupão, ficou de calcinha e sutiã, ligou o chuveiro, entrou na banheira e iniciou uma dança erótica toda molhada (literalmente falando) pro delírio da platéia.

Foi quando se aproximou de mim, um cara de mais ou menos 1.90m, com a cabeça raspada e os braços lotados de tatuagem e sorrindo, me disse:

- Que puta morena gostosa, cara!

E eu respondi sorrindo também:
- Pode Crer!
Então, ele me confessou um detalhe que me fez gelar a alma:
- É a minha mina, caralho!

Bom, eu havia acabado de chamar de gostosa, a namorada de um cara que parecia um figurante de filme do Chuck Norris. Em resumo: minha vida ia terminar alí e de um jeito bem doloroso. Foi quando tentei reverter a situação:

- Cara, foi mal. - disse pro sujeito
-Ué, você não falou que ela é gostosa? - respondeu o cara me fuzilando com os olhos

- Disse, mas não foi bem do jeito que você tá pensando - eu não podia ter dito coisa mais idiota!
- Afinal, minha mina é, ou não é, gostosa? - me perguntou o grandalhão.

Aquele papo começou a me irritar. E infelizmente, quando fico puto, tenho uma certa tendência a perder a noção do perigo. Foi quando respondi seco pro cara:

- Quer saber? Sua mina é gostosa pra cacete! E aí?

Eu já tava esperando a primeira porrada, quando o sujeito abriu um largo sorriso e me disse:

- Assim que se fala, baixinho. Você quer uma cerveja?

Bom, o restante da noite foi sem grandes sustos. Aquele deve ter sido um dos shows mais legais que o Asilo 70 havia feito até então. Sai do Postinho com ótimas amizades. Inclusive, do brother com os braços tatuados.
Meses após esse show, Cuca Santos deixa banda por questões financeiras. Então, Johnny reassume a bateria.... pra logo depois o Willie sair da banda! Lá vai o vocalista aqui correr atrás de outro guitarrista.
Depois de alguns testes, escolhemos um guitarrista chamado Pascale. Um cara super gente boa e que tocava muito bem.
Com essa formação, fizemos um show no estacionamento do centro de reabilitação de deficientes físicos do qual eu havia sido paciente durante tantos anos. Foi um dos shows mais emocionantes do Asilo-70.

Após isso, Pascale teve que se mudar com a esposa e a filhinha recém-nascida pra Praia Grande. Sendo assim, ficamos novamente com uma lacuna a ser preenchida. Se alguém adivinhar quem foi o guitarrista que entrou no lugar do Pascale, eu vou dar um doce. Só uma dica: ele foi da formação original da banda. Pois é, olha o Willie de volta!

Por isso que eu disse que o Asilo-70 foi uma relação de amor e ódio entre seus integrantes. O Johnny mesmo, chegou a sair e voltar pra banda em outras ocaisões. Parecia que a gente trocava mais de baterista do que de meia, mas enfim...

Foi com a chamada formação clássica da banda (Johnny, Edu, Willie e eu) que participamos do primeiro INCLUSOM, festival que aconteceu no Manifesto em 2005 e foi elaborado por mim e pela minha amiga, a jornalista Leandra Migotto, e que tinha o objetivo de arrecadar fundos pra instituições que trabalhavam com deficientes físicos. Só pra variar, nesse show também aconteceu algo pitoresco. E pra não perder o costume, foi comigo outra vez.



Ao entrar no Manifesto pra fazer a passagem de som, eu tropecei no próprio pé (coisa de usurário de perna mecânica que tenta correr) e fui literalmente de rosto no chão. O barulho da minha testa batendo no piso do bar foi tão alto, que uma das garçonetes chegou a dizer: "Porra, derrubaram o barril de chopp no chão outra vez?"


O pessoal da banda e os funcionários do Manifesto me ajudaram a levantar. Porém, o que havia acontecido comigo era preocupante. Eu estava com um corte no super-cílio esquerdo que não parava de sangrar. Cogitaram de me levar a um hospital pra que eu levasse pontos, mas se fizéssemos isso, não haveria tempo pro show.

Porém, o Willie havia começado a namorar com uma médica que o acompanhara na passagem de som. Foi essa moça que deu a idéia de dar um ponto falso com esparadrapo pra parar o sangramento.

Todos correram pra farmácia mais próxima pra comprar esparadrapo, gase, mertiolate, etc... tudo que era necessário pra dar o ponto falso. Voltamos pro Manifesto e nos trancamos no banheiro pra que a namorada do Willie remendasse a minha testa.
Eu lembro que o sangramento parou na terceira tentativa. Eu e o Willie saimos do banheiro e corremos pro palco. Havia um show pra fazer em nome de uma causa nobre. Graças a Deus, o resto da noite correu sem maiores problemas. Pois é, Deus no coração e Rock And Roll no sangue!!


O Asilo-70 encerrou atividades em 2006. Em 2007, tentei reformular a banda com outros músicos que deram uma roupagem mais pesada aos grandes clássicos dos anos 70. Com essa formação, chegamos a fazer o segundo INCLUSOM também no Manifesto. Foi o encerramento de sete anos de história da banda com chave de ouro.
Eu fico imaginando como seria a trajetória da banda com os recursos de hoje. Apesar da Internet contribuir com o nascimento do Asilo-70, não tínhamos ferramentas de divulgação como o Orkut, My Space, Twitter, etc. Mesmo assim, o Asilo-70 foi um exemplo do que pode ser feito com perseverança... e amor ao Rock And Roll!!


quarta-feira, 22 de julho de 2009

AO MESTRE, COM CARINHO

1994 foi um ano de renovação. O Plano Real havia sido instaurado, trazendo novo alento pra todos que haviam sofrido com o plano Collor anos atrás. O Brasil finalmente conquistou o tão sonhado tetra campeonato mundial de futebol, em cima da rival Itália. As pessoas entravam no clima dos novos ares que o país respirava e faziam planos. Comigo, não foi diferente.
Nesse ano, eu fui substituído no Zerstorer por um vocalista que viría a se tornar um grande amigo meu momentos depois: o Marcelo, que atualmente canta na banda Ópera. O motivo da minha substituíção foi o repertório da banda que estava cada vez mais complexo e eu não tive como acompanhar esse ritmo de trabalho por questões técnicas, mesmo fazendo aulas de Canto desde 1993.
Apesar de eu ter me chateado bastante com minha substituição, isso me fez refletir muito sobre algo que mudaria meu destino pra sempre: qual a importância da música na minha vida? Até aonde eu deixaria a música me levar? A resposta à essas perguntas viriam até a mim na forma de um dos personagens mais importantes da minha estória.

Bom, eu já fazia aulas de Canto na época em que recebi um belo pé na bunda do Zerstorer, mas percebi que não era suficiente. Eu precisava direcionar minha voz pra o que eu queria.
Até a professora com quem eu fazia aulas, me orientou no sentido de eu procurar alguém mais específico. Mas quem?
Eu cheguei à conclusão que deveria ver isso com calma, queria fazer aula com a pessoa certa e eu também tava sem banda mesmo. Então não havia pressa.
Meu gosto musical estava mudando também. Gradativamente, as bandas de Heavy e Thrash Metal que eu curtia cediam espaço pras bandas de hard rock e progressivo, com uma ênfase especial pro Rush, banda da qual cheguei a ter a coleção completa de discos em vinil.

Outro fator que alterou muito meu gosto musical foi o Rhinos Bar. Através dos seus frequentadores, tive contato com o trabalho de bandas de Rock And Roll e Blues-Rock dos anos 70 que não faziam parte da chamada "Divina Trindade" da época (Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple). E foi no Rhinos que conheci um brother que viria a me indicar meu novo professor de Canto.

O vocalista da banda Mr Hide havia feito aulas com um cara chamado Nando Fernandes que fazia parte, na época, do Cavalo Vapor e do Deep Purple Cover. Pelo que eu já havia visto nos shows do Mr. Hide, realmente as aulas deram um bom resultado pra esse meu amigo.

"O cara é um excelente professor porque ele entende do tipo de som que a gente gosta", disse o meu brother. Sendo assim, tratei de pegar o telefone do Nando com ele.

No mesmo dia, fiquei sabendo que o Cavalo Vapor iria se apresentar no então Brithania, na semana seguinte. Seria uma ótima oportunidade de eu ver o Nando em ação, antes de acertar alguma coisa. Resolvi então esperar um pouco mais, antes de entrar em contato com ele. Juntei uma galera e fomos todos assistir Cavalo Vapor e Dr Sin no outro fim de semana.

A primeira impressão que tiver ao ver o Nando cantar, foi me perguntar: "cacete, esse cara é de verdade mesmo?". E o mais engraçado é que me pergunto isso até hoje, cada vez que o vejo cantando. Pra mim, ele é um cara que sempre beirou à perfeição.

Após ficar extasiado com a performance dessas duas bandas fantásticas, tive vontade de bater um papo com meu futuro professor de Canto. Porém, o pessoal com quem eu estava, queria sair do Brithania pra esticar a balada pra um outro lugar. Como eu já tinha o telefone do Nando, achei melhor ir com a galera e deixar pra conversar com ele em outra ocasião.

Também foi na mesma semana que resolvi montar uma nova banda. Mesmo sem saber direito que estílo de som seguir. Eu estava numa fase em que ouvia muitas bandas diferentes e todas elas me influenciavam de alguma forma. Foi quando a resposta veio até a mim de uma forma totalmente inusitada... só pra variar.

Numa bela tarde, dias antes de eu ligar pro Nando, meu amigo Ricardinho me encontrou no elevador do condomínio onde morávamos e me disse que tinha uma fita que queria que eu ouvisse. Quando perguntei do que se tratava, ele me respondeu: "é uma banda canadense chamada Triumph. Tem música dos caras que parece Hard Rock. Outros sons, parece Progressivo. Como você curte as duas coisas, acho que vai gostar".

Peguei a tal fita cassete do Ricardinho e fui ouvir o tal do Triumph. Moral da estória: minha cabeça girou 180 graus ao escutar aquilo!
Triumph tinha tudo que eu sempre quis ouvir numa banda: arranjos e riffs de guitarra muito bem estruturados, refrões marcantes e na falta de um, a banda possuia dois vocalistas de primeiríssima linha: O baterista Gill Moore e o guitarrista Rik Emmett. Fora que os caras compuseram um som chamado Never Surrender cuja letra, considero até hoje como um resumo da minha vida. E como se não bastasse, a banda era um power-trio. Ou seja: eram três músicos que esbanjavam talento.

Aquela fita cassete resolveu a questão do direcionamento que eu queria dar pro meu próximo projeto. Ou eu montaria uma banda com influências dos caras, ou criaria um Triumph Cover. Como em 1994 estava muito em voga as bandas de cover específico, resolvi montar um Triumph Cover e convidei o Evandro, meu velho parceiro de bandas, pra assumir o contra-baixo dessa nova empreitada. Assim como eu, Evandro se apaixonou pelo trabalho desse maravilhoso power trio canadense e tratamos de arrumar os outros componentes da banda que estavam faltando.

Enquanto isso, eu tratei de entrar em contato com Nando Fernandes. Pra cantar Triumph, eu precisaria de uma bagagem técnica. Então, fui correr atrás do prejuízo o quanto antes.

Me lembro até hoje da primeira ligação que fiz pro Nando. Conversamos durante um bom tempo por telefone e ele me explicou detalhadamente tudo que o seu curso de Canto tinha a oferecer. Marquei uma quarta à noite pra iniciarmos as aulas.

A primeira aula acabou sendo um bate-papo, onde ele me perguntou sobre muitas coisas. Desde meu gosto musical, até a minha experiência com bandas, se eu já havia estudado Canto, etc. Foi aí que o Nando fez a pergunta crucial:

- Por que você quer aprender a cantar?

- Porque cantar me faz bem - respondi a ele - Não sei bem o por quê, só sei que me faz bem. Sendo assim, quero que você me ensine.

Foi a partir daí que se deu início a seis anos de curso de Canto. Como os ensaios com o Triumph Cover começaram na mesma época, eu usava a banda como laboratório pra aplicar na prática o que aprendia durante as aulas.


O Nando dizia que eu mostrava um potencial pra coisa. Sendo assim, a cobrança durante o curso sempre foi muito grande, e agradeço muito a ele por isso. Numa ocasião, ele teve o seguinte papo comigo:


- Você é um cara inteligente o suficiente pra saber que possue uma certa diferençazinha, em comparação aos outros. Essa diferença, pra mim, não influencia em nada. Pra minha família e pra sua, também não. Também não influencia pros seus amigos que te conhecem bem. Falo isso porque todo mundo sabe da sua competência, das suas capacidades. A gente sabe que sua diferença jamais será desculpa, ou pretexto pras suas derrotas. E nunca será um trampolim pras suas vitórias, pois você não precisa se valer disso pra vencer na vida. Eu sei disso de coração.

E ele continuou:

- Só que o mundo lá fora, por pura ignorância, não sabe disso. A gente vive numa sociedade que julga o livro pela capa, você sabe. Bom, eu vou te ensinar pra que ninguém, sob hipótese nenhuma, veja a sua diferença. Ou até veja, mas em segundo plano, pois sua competência vai mostrar que essa diferença é um detalhezinho sem importância. Ao subir no palco, você será sempre a águia empuleirada na montanha mais alta. As suas garras vão ser sua voz. E quero ver quem é que vai ter coragem de desafiar uma águia empuleirada no ponto mais alto, pronta pra usar as garras! Nem o mais ignorante vai ter coragem de te encarar.

Foi nesse espírito que prossegui no curso. Sempre digo que ter aulas com o Nando se resumia em receber elogios quando merecia e tomar uns belos puxões de orelha quando precisava. A música havia deixado de ser apenas uma brincadeira, pra se transformar na minha razão de viver. E isso, eu também devo ao Nando. Finalmente, encontrei alguém que me ensinou a amar música.

E por falar em paixão, de nada adianta estar apaixonado, se você não tem o lugar adequado pra fazer amor. No mesmo ano, surgiu o lugar onde eu ia fazer amor com a música todos os sábados: o Noni-Noni Bar.

O Noni-Noni era um lugar onde os termos Rock and Roll e irmandade se fundiam em uma coisa só. Foi o meu templo sagrado durante muito tempo, lugar onde conheci pessoas extraordinárias e fiz amizades duradouras. Nesse bar, tive a oportunidade de conhecer também dois caras que, assim como o Nando, viriam a se tornar minhas principais influências: Rogério Fernandes, irmão do Nando, e o Ackua. Até hoje, considero esses três como a trinca de ases da voz. Maior que o talento deles, só o coração desses verdadeiros guerreiros do Rock And Roll.

Foi a época de assistir a grandes shows do Electric Funeral (Black Sabbath Cover, onde o Rogério era o vocalista na época); Knock Out e Whitesnake Cover (bandas das quais meu querido brother Ackua era o vocalista). Isso sem falar no Deep Purple Cover e no Cavalo Vapor, bandas que o Nando assumia o vocal.

Era a época de conversar durante a aula sobre os acontecimentos do último show do Uriah Heep, de estudar feito doido durante a semana. De cair de balada no Noni-Noni no sábado e ensaiar com o Triumph Cover no domingo. Época de discutir desde o último disco lançado pelo Glenn Hughes, até a última menininha que pegamos na balada. Eram bons tempos.

O Noni-Noni era meu antro de perdição, local de diversão e a minha verdadeira Escola do Rock. Tudo no mesmo lugar! Mas havia chegado a hora desse saudoso bar se tornar o lugar onde eu mostraria que o Dudé veio pra ficar. Depois de meses de ensaios, minha banda tinha uma data de show marcada. E seria numa quinta-feira. Só pra mostrar pros donos da casa, e pra poucas testemunhas, do que o nosso Triumph Cover era capaz.

Esse primeiro show teve dois episódios inesquecíveis pra mim: foi uma noite que caiu uma chuva tão forte, que quase não conseguimos chegar, mas chegamos e fizemos o show. E foi também a primeira vez que o Rogério viu uma apresentação minha.

"Meu irmão pediu pra eu vir aqui pra ver como você se comporta. Se você fizer merda, vou dedurar pra ele. Não quero nem saber!" disse o Rogério sorrindo pra mim, um pouco antes de eu subir no palco.

Eu sei que naquela noite, o show correu bem, os donos da casa gostaram e fui pra aula na semana seguinte, esperançoso do Rogério ter passado um relatório favorável à minha pessoa pro Nando.

- O Rogério falou super bem de você e da banda, gostei de saber. No próximo show, eu vou conferir pessoalmente - disse o meu professor de canto, no intuito de me incentivar através da pressão. Aliás, diga-se de passagem, não existe forma melhor de se incentivar alguém do que jogar a responsabilidade pro mesmo. No show seguinte, o Nando estava na platéia e curtiu muito o que ouviu.

- Moleque, gostei pra caramba de você cantando, sua postura de palco, etc. O caminho é esse mesmo, mas ainda temos bem o que trilhar. - disse meu mestre Jedi que sempre acreditou no meu potencial.

Música se tornava cada vez mais a minha disciplina. Parei de beber e comecei a cuidar melhor de mim pra preservar meu instrumento mais valioso: minha voz. Eu acordava música, comia música, bebia música e dormia música.

Foi a época dos relacionamentos afetivos que nasciam pouco antes de eu subir no palco, e terminavam pouco antes de eu terminar o show seguinte. O que eu mais ouvia de reclamação das meninas era que eu só arrumava amantes, pois namorada séria mesmo, eu já tinha a música.

Com 22 anos de idade, eu não me importava com esse tipo de observação. Eu só queria cantar, só isso! Tudo que eu queria era um palco, com um microfone na minha frente e uma banda recebendo os aplausos do público. Era o que importava pra mim.

Os relacionamentos terminavam com lágrimas, cerveja e uma boa transa depois do show, que só me serviam de inspiração pra que eu fizesse uma interpretação mais acentuada, nas baladas românticas que o Triumph Cover tocava. Com certeza, foi a fase mais radical da minha vida.

Quando não lidava com música de forma direta, eu arrumava um jeito de lidar de forma indireta. Cheguei a trabalhar como vendedor de instrumentos musicais e técnico de som num estúdio de gravação só pra bancar as minhas aulas. E fui tocando a vida dessa forma até o ano de 1999, quando entrei na reta final do curso de Canto. O Noni-Noni não existia mais, muito menos o Triumph Cover, mas surgiram outras bandas pra eu trabalhar como vocalista. Assim como outros bares pra me apresentar.

Nesse ano, surgiu a necessidade de eu arrumar uma fonte extra de renda pra continuar bancando as minhas aulas, pois foi quando comecei a ajudar nas contas daqui de casa. Eu não queria parar com o curso, justo quande estava pra terminá-lo

Foi quando surgiu a oportunidade de me tornar professor de Canto numa instituição de reabilitação de deficientes físicos. Eu não podia iniciar de forma melhor, a minha carreira como professor. Sendo assim, aos 27 anos de idade, fui encarar mais esse desafio na minha vida e com o aval do Nando. Fora que era uma ótima oportunidade de dar minha contribuição social também. Afinal, eu já fui paciente de um centro de reabilitação durante anos. Parei de dar aulas nessa instituição pra trabalhar como professor em 2000 na minha própria casa.


Nesse mesmo ano, meu curso de Canto havia chegado ao fim. Mesmo depois de terminar o curso, continuávamos a nos encontrar no Café Piu-Piu, quando o Nando se apresentava com o Kaleidoscope e, posteriormente, com a banda Rádio Show. E sempre com direito à alguma jam da minha parte.

Os anos foram passando e quando menos esperava, o Nando me surpreendeu mais uma vez, com as suas aparições antológicas no Programa Raul Gil, competindo no quadro "Quem sabe, Canta. Quem Não Sabe, Dança". Foi quando minha família teve a oportunidade de acompanhar, e torcer, por aquele que havia me ensinado durante tanto tempo.

Em 2004, havia chegado a minha vez de passar no teste pro Raul Gil. E minha gravação se deu no fim do mesmo ano, com a minha participação sendo transmitida em janeiro do ano seguinte. A música que cantei? Lay It On The Line do Triumph, é claro!

Foi um dia em que o Nando me mostrou a diferença entre ser professor e ser mestre. Ele ficou o tempo todo do meu lado, passando a sua experiência em programas de auditório pra que tudo corresse bem comigo. E não poderia ser melhor...

Naquele janeiro de 2005, minha voz e imagem correram o Brasil todo pelas ondas da TV chegando numa cidadezinha chamada Valença, onde muitos anos antes, uma família havia saído com a cara e a coragem pra procurar tratamento médico pro seu integrante mais novo. Aquele que havia saído do interior da Bahia sem muitas apostas de vitória, retornava com uma força que poucos poderiam prever. A águia empuleirada no topo do mundo mostrava suas garras pra alívio e alegria de muitos que assistiram à minha partida, e da minha família, em 1976.

Hoje, sou um dos caras responsáveis por seguir com o legado de Nando Fernandes, algo que me enche de honra. Tenho meu home studio, onde administro as minhas aulas, trabalho cantando na noite, além de ter inúmeras gravações em estúdio. Me encontrei como profissional e como pessoa, graças a um cara que teve a capacidade de enxergar a águia que existe em mim.

Essa águia voa cada vez mais alto hoje em dia. E faz questão de deixar bem claro que foi um grande mestre chamado Nando Fernandes que a ensinou a ganhar o céu.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

IT'S ONLY ROCK AND ROLL, BUT I LIKE IT!!!

"Música é a forma mais completa de libertação". Quanto mais ouço essa frase, mais concordo com ela.

Em 1988, eu tinha 16 anos. Estava em plena atividade típica de adolescente demarcador de território, mas com uma diferença: o território que eu queria demarcar era tão amplo, que não cabia na minha cabeça, nem no meu coração. Talvez seja esse o motivo pelo qual eu comecei a andar noite afora.

A fase das trevas das inúmeras cirurgias já havia passado. E comecei a sentir o por quê dos médicos terem pedido tanta paciência, tanto da minha parte, quanto da parte da minha família.

Eu finalmente andava com passos firmes, sem precisar de muletas. Desde os meus 14 anos, eu dava minhas escapulidas do meu condomínio e ganhava a rua. Minha mãe me dava a orientação de eu sair do prédio, onde moro até hoje, sempre acompanhado. Mas se eu saísse de casa "escoltado", jamais aprenderia a me virar. E de 1986 a 1988, foi o que tratei de fazer: fui aprender a ganhar a rua sozinho.

Aos 16 anos de idade, eu estudava no Colégio São Judas no período da tarde. A parte da manhã era pra cuidar dos meus afazeres de escola. Sendo assim, me sobrava a noite.

E à noite, eu saia de casa todos os dias, com chuva, ou com frio. E andava, e andava, e andava....

Minhas primeiras caminhadas tinham como objetivo, a casa dos meus amigos de colégio. Eu era craque em cair de páraquedas na casa dos outros. Batia um papo com alguém que estudava comigo e ía embora. Cada noite que passava, as caminhadas tornavam-se cada vez mais longas. Houve noites em que eu praticamente cobria o bairro inteiro da Mooca, onde moro. E era conhecido em cada canto que eu passava.

Numa dessas "rondas", como minha mãe chamava meus passeios noturnos, encontrei uma amiga de colégio que morava num prédio na Rua Tobias Barreto, a Márcia. Ela estava com outras pessoas que haviam testemunhado uma briga. Quatro sujeitos dentro de um carro haviam cercado um pobre coitado numa esquina próxima e o espancaram até deixá-lo estirado no chão. O grupo que estava com essa minha amiga estava disposto a vingar a humilhação que esse cara havia sofrido (esse episódio, eu vi acontecer não sei quantas vezes. Na Mooca, ao cair da noite, era assim: os personagens mudavam, mas o roteiro era sempre o mesmo).

Como eu estava ali apenas nas minhas caminhadas costumeiras, e como essa minha amiga era muito bonita, resolvi marcar presença e ajudar aquele pessoal a encontrar os caras que haviam espancados o amigo deles. Foi quando ouvimos um som de pneu cantando e uma Caravan marrom entrou em alta velocidade na rua debaixo, que fazia cruzamento onde estávamos. Então, eu perguntei:

- Será que é o carro dos caras?

Por um momento, ninguém me respondeu. Quando perguntei outra vez, um dos caras que estava no grupo, sussurou no ouvido da minha amiga: "só falta os manos serem da Campineiros".

Foi então que eu perguntei:

- O que tem os caras da Campineiros?

Novamente, ninguém me respondeu. Sendo assim, eu voltei a perguntar:

- Caramba, o que tem os caras da Campineiros?

- Na Rua dos Campineiros só tem doido, brother. É isso! - respondeu o mesmo sujeito que havia sussurrado momentos antes.

Como a coisa toda havia chegado a um impasse, eu me ofereci pra descer até a Rua dos Campineiros e verificar se o carro que havia passado por ali momentos antes, era o mesmo que eles estavam procurando.

-Deixa quieto, Dudé. Não precisa fazer isso, não. Os caras da Campineiros são super gente boa, mas se foram eles que espancaram nosso amigo, já viu, né? - explicou minha amiga Márcia.

Então, eu respondi:

- Por mim, tudo bem. Eles não me conhecem mesmo. E eu não vou chegar nos caras e perguntar do carro, né? Vou só dar uma olhada e volto aqui depois.

Imagina que eu ia perder a oportunidade de impressionar uma das meninas mais bonitas da escola? Ser adolescente é isso, a gente sempre pensa com os hormônios.

Desci até à Rua Dos Campineiros. Andei de uma esquina a outra e não encontrei nada. Quando eu voltava pra Tobias Barreto, encontrei um outro grupo de pessoas que estavam conversando na porta de uma vila.

"Será que os caras são doidos mesmo? Vou lá verificar". Pensei comigo mesmo.

Atravessei a rua, me aproximei deles e fiz o que sabia fazer de melhor naquela época: cair de páraquedas e puxar assunto com as pessoas.

O resultado dessa conversa foi que daquela noite em diante, eu tinha endereço certo. Todas as minhas caminhadas ou começavam, ou terminavam na Rua dos Campineiros. Acabei me tornando mais um doido daquela vizinhança.

Entre as muitas amizades que fiz ali, duas acabaram se tornando muito especiais. Os nomes dos caras são Alessandro e Evandro.

O Alessandro e o Evandro são as duas pessoas mais diferentes uma da outra que já conheci. E talvez seja por isso que eles se davam tão bem. E se dão bem até hoje, pois nossa amizade não se perdeu com o tempo. A mim, coube ser o meio termo entre essas duas figuras extraordinárias.

O Evandro sempre foi o cara metódico, aquele que se apega aos mínimos detalhes. Essa característica veio a fazer a diferença nas outras bandas que viemos a particiar a seguir. Um cara tímido, que deixava sempre claro que quem se aproxima dele, deve primeiro ganhar sua confiança. Nunca foi uma pessoa de falar muito, mas me lembro dele como aquele que sempre falava o necessário, no momento certo. Inclusive na hora de tirar sarro de alguém, ou de alguma coisa. O que no nosso caso, que sempre tínhamos um senso crítico super afiado, acontecia com bastante frequencia

O Alessandro é totalmente o contrário. Uma pessoa expontânea, um cara impulsivo em muitas ocasiões. Conversava com todo mundo, fazia amizade com todos. Tinha um senso crítico muito apurado, estava sempre de bom humor. Fazia o que lhe dava na telha, sem se preocupar muito com a opinião alheia.


E junto com eles, estava eu. Horas, eu achava necessário chutar o balde com determinadas coisas, como o Alessandro agia. Em outras ocasiões, eu achava que devia ponderar e pensar nos prós e contras, como o Evandro fazia. Em muitas ocasiões, tive a honra de ser o freio de um, pois não se vive chutando o balde o tempo todo, e o acelerador do outro, porque certas coisas da vida são mais divertidas de se fazer sem ponderar.

Nós três tínhamos outra coisa em comum: o Rock And Roll.

Desde 1985, minha visão do mundo havia mudado, a partir do primeiro Rock In Rio, que foi transmitido pela TV.

Assistia empolgado aos shows de Ozzy Osbourne, Scorpions, Whitesnake e Iron Maiden. Porém, teve uma banda que foi a responsável por dar uma guinada de 180 graus na minha vida: Queen. Esse foi o show do qual assisti e pensei de imediato: "é isso que quero fazer da minha vida!". Aquele show me marcou de tal forma que anos depois, a profecia se concretizaria.

A Mooca dos meus tempos de adolescente era um bairro que não tinha muito o que fazer. Havia a Over Night, danceteria que se encontrava na Rua Juvenal Parada. Ficávamos na porta dessa danceteria, nos botecos do outro lado rua, jogando conversa fora até os frequentadores saírem de lá. Quando saiam, sempre acontecia algum tipo de problema. Os problemas mais simples eram resolvidos no tapa ali mesmo. Os mais graves, normalmente se extendiam durante a semana, com turmas tomando partido daqueles que tinham culpa no cartório, ou não. Se encontrando à noite pra se espancarem uns aos outros.

Havia os momentos de calmaria. Assim como os embates que duravam dias. Quando a coisa toda era resolvida na porrada, tudo bem. O problema foi quando começou a aparecer gente resolvendo suas diferenças na bala. Perdi dois amigos por causa desse tipo de estupidez. Nesse campo de batalha estávamos eu, o Alessandro e o Evandro.

O Evandro por ser mais reservado, não se envolvia muito nessas brigas. Mas eu e o Alessandro, que sempre estávamos pela rua na hora errada e no lugar errado, sobrava alguma coisa às vezes.

Foi nessa época que resolvi usar minha prótese superior outra vez. Meu braço mecânico era aquele antigo tipo canadense, feito em madeira e alumínio. No lugar da mão, ele possuía dois ganchos feitos em alumínio maciço que abriam num movimento em pinça. Comecei a usá-lo como "esmagador de crânios" caso fosse necessário. Era o que eu tinha pra me defender, caso minhas caminhadas noturnas acabassem em algo, digamos, desagradável.
Pra ajudar mais ainda, numa das primeiras vezes que usei o braço mecânico pra arrebentar alguém, fui arrumar confusão na frente de um templo evangélico, onde os religiosos saíram à rua gritando: "Pára, pára! Você está acabando com o rapaz com esse instrumento do diabo!!". E olha que o moleque com quem briguei naquela noite nem fazia parte daquela igreja.

No dia seguinte, a notícia se espalhou pelo bairro e meu braço mecânico ganhou um apelido super meigo da galera: Satan. Eu era o cara que andava à noite, com o Satan do lado. Sinceramente, ninguém merece.

O tempo foi passando e muito dessas situações que descrevi, continuavam a acontecer constantemente. Eu comecei a cansar de tudo aquilo.

Numa bela noite, sentado na guia da calçada na Campineiros junto com o Alessandro e o Evandro, veio a ideia brilhante. E essa ideia só podia vir do Alê.

Ele disse que tinha umas economias no banco. Que como estava pra completar 18 anos, podia mexer nessas economias sem pedir permissão pra sua mãe. A ideia era comprar todo equipamento necessário (amplificadores, caixas de som, potencia, guitarra, baixo e bateria) pra montarmos uma banda. O Evandro cederia o espaço pra ensaiar que seria os fundos da sua antiga casa, pois sua família havia se mudado pra um apartamento semanas antes.

Nós haviamos achado uma solução. Íamos matar o tédio, antes que o tédio nos matasse.
O que o Alessandro tinha de dinheiro guardado não era nenhuma fortuna, mas serviu pra que comprássemos um equipamento modesto que servia bem pro que queríamos. Logo depois disso, o Evandro adquiriu seu próprio equipamento vendendo sua mobilete pra comprar um ampilificador. O seu pai conseguiu um contra-baixo fazendo uma base de troca com uma caixa de uísque. Ter o Rock And Roll no sangue é isso.

A parte inusitada da banda ficou a cargo de quem seria o baterista. Ou seja: eu.

- Alê, valeu pelo convite, mas pra tocar bateria não é necessário ter uma coisa chamada mão? - perguntei pro Alessandro ironizando.

Só que esse meu grande brother era o homem das ideias. Ele disse que eu tocaria bateria amarrando as baquetas aos meus cotos com fita adesiva. Dito e feito!

Apesar da depilação forçada que eu tinha que passar cada vez que separavam as baquetas dos meus braços, eu abracei a ideia com entusiasmo. E foi assim que os ensaios começaram aos domingos à tarde. O repertório: bandas como Ramones, Sex Pistols e Dead Kennedys. Punk Rock de primeira.

Nossa vida se resumia a ir até a famosa Galeria Do Rock, no centro da cidade, aos sábados. Quando tínhamos uma graninha guardada, comprávamos algum disco. Quando estávamos duros, fazíamos amizade com algum dono de loja que nos gravava o disco que queríamos em fita cassete.

Aos domingos, ensaiávamos a tarde toda. Entre reclamações dos vizinhos, moleques que tentavam invadir a casa do Evandro pra roubar nosso equipamento e visitas da polícia por distúrbios na vizinhança, nós sobrevivíamos. A rua já não era mais necessária.
Eu costumo a dizer que essa primeira banda foi a semente que fez gerar a árvore que se tornou minha vida hoje. Porém, começamos a sentir na pele pela primeira vez, o stress de fazer parte de uma banda. Desentendimentos entre nós três resultou no término do nosso projeto.

Como não havia mais banda, fiz a asneira de voltar a perambular pela rua à noite outra vez. Mas isso durou pouco tempo.

Numa noite em que me encontrava num boteco de esquina perto do colégio São Judas, me deparei com um sorridente Evandro que me disse:

- Porra, é mais fácil falar com o Papa do que com você. To te procurando faz um puta tempo!

- Faaaaala, meu filho. Que bom rever você. E aí, o que manda? - respondi contente ao ver meu brother do contra-baixo outra vez.

A novidade era uma outra banda. Só que essa precisava de vocalista. No projeto anterior, eu já havia me aventurado no vocal algumas vezes, mas na minha cabeça, eu tinha que ser baterista.

O Evandro me contou da banda nova. Estava tudo muito na fase inicial e os caras se prontificaram a fazer um repertório só com Ramones pra pegar mais entrosamento entre os integrantes. A ideia era eu ser o vocalista e em troca, o baterista da banda me daria umas aulas do seu instrumento. Nossa, topei no ato!

Na semana seguinte, participei do primeiro ensaio na casa do Dirceu, o baterista, que morava na região de Moema. Nascia alí o Zerstorer.




Como eu era o único da banda maior de idade, mas não sabia dirigir, todo ensaio era feito um esquema de carona. Pra essa função, revezavam-se meu pai, o pai do Evandro e o pai do Humberto, um dos guitarristas da banda. Isso era necessário, pois junto com a gente ia também o equipamento de cada um.

Em algumas ocasiões, nós íamos pra casa do Dirceu no sábado à noite, caíamos de balada, bebíamos até as tripas não aguentarem mais, voltávamos vomitados pra casa do nosso baterista e ensaiávamos azedos no domingo. Afinal de contas, Zerstorer era uma banda de machos. Podres, é verdade. Mas machos!


E mesmo com essa atitude podreira, ainda haviam algumas meninas que nos adoravam. Vai ver era por causa dos nossos cabelos compridos e tatuagens que começávamos a cultivar naquela época. Apesar que as meninas eram bem podres também, confesso.

Logo surgiu a oportunidade do nosso primeiro show. A festa de aniversário do nosso grande amigo Ivan que aconteceu na garagem do seu prédio e terminou com a vizinhança chamando a polícia pelo excesso de barulho (putz, que novidade!).

Através dessa festa do Ivan, conheci outro grande brother: o Poá que na época era baterista de uma banda chamada Veritas. Ele nos convidou pra participar de um festival que aconteceria num colégio chamado Maria Emaculada, que fica na região do Paraíso. Esse evento acontecia todos os anos no teatro que ficava dentro desse colégio e reunia, em média, umas 500 pessoas. Seria nosso grande teste.

Ensaiamos mais do que nunca pro grande dia do festival. Todos os nossos amigos foram nos encontrar na casa do Dirceu pra irmos todos juntos pro grande evento. O problema é que havia um carro só pra levar 15 pessoas. E eu não to exagerando, havia 15 pessoas mesmo.

Quem se prontificou a nos levar até o local do show, foi a mãe do Yuri, o segundo guitarrista da banda que dividia as bases e os solos com o Humberto. A solução que arrumamos foi transformar o Santana Quantun da mãe do Yuri num jogo Tetris, onde as peças que vão uma por cima da outra eram os integrantes da banda, os amigos dos integrantes da banda e nossa corajosa motorista que estava com vontade de matar o próprio filho por razões óbvias. Me lembro de ouvir o barulho do escapamento do carro se soltar, arrastando no asfalto em virtude do peso, quando saímos. Mas não havia tempo pra nos apegarmos a detalhes sem importância, tínhamos um show pra fazer.




Ao chegarmos no Maria Emaculada, corremos com a nossa tropa pro local onde se encontrava o palco. O ano era 1991, eu tinha 19 anos. Vou guardar esse show na memória pra sempre. Tocávamos uma música atrás da outra. Só Ramones. Quase que aquele teatro veio abaixo com tanta gente agitando e pulando do palco, tomados pela nossa energia. Foi quando a ficha caiu pra mim que aquilo que fazíamos não era brinquedo. Música tem um poder muito forte. E o Rock And Roll então, nem se fala.

Os ensaios continuavam, mas o repertório foi mudando. Em virtude das influências dos discos Black Album do Metallica e Fear Of The Dark do Iron Maiden, que causaram grande repercussão na época, começamos a tirar músicas dessas grande bandas, além das nossas próprias composições, com destaque pra Santa Claus Is Dead que o pessoal adorava

Foi a época das baladas às sextas à noite no Rhinos, bar de Rock And Roll do meu grande amigo Naldo. Lá, nós respirávamos Rock And Roll, conversávamos Rock And Roll e até bebiamos Rock And Roll, pois o Naldo criava batidas com os nomes Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Led Zeppelin e por aí vai.
Nesse ambiente, conheci um sujeito chamado Neivas. Um cara que podemos resumir como a Enciclopédia Barsa do Rock. Ele foi responsável por eu conhecer as influências das minhas influências na época, só pra se ter uma ideia.

O Neivas organizou em 1993, um festival no salão de buffet pertencente à sua mãe, onde tocaram as bandas Zerstorer, Mr. Hide e Veritas.
Montamos um palco feito de madeira compensada e engradados de cerveja, ligamos os amplificadores no volume máximo e lógico, convidamos todos os fãs de Rock And Roll da Mooca e região pra uma baita festa. Dessa vez, sem a presença da polícia.

Em virtude da banda começar a tirar músicas tecnicamente mais complexas, eu senti a necessidade de estudar Canto pra aprimorar minha voz. Então, fui ter minhas primeiras aulas com a coordenadora do Coral da Igreja do Bom Conselho. Ela me dava aulas na infelizmente extinta escola Solo e Harmonia. Foi numa audição dessa escola, que meus pais tiveram a oportunidade de me ver cantar pela primeira vez.

As aulas de Canto que tive na Solo e Harmonia me serviram de alicerce, mas eu queria mais que isso. Minha professora na época aconselhou-me a fazer aulas com um professor que fosse mais específico.

Em 1994, eu sentia uma necessidade muito grande de levantar vôos cada vez mais altos. Só que pra isso, eu precisava de alguém que me ajudasse com as minhas asas.


terça-feira, 23 de junho de 2009

REABILITAÇÃO

Chegamos aqui em São Paulo em 1976. E meu tratamento se iniciou o quanto antes.

Como medida preventiva, meus pais deixaram minhas irmãs com a minha avó em Valença, enquanto passávamos uma estadia aqui em São Paulo na casa dos meus tios.

Meus pais ainda acreditavam que meu tratamento duraria, no máximo, um ano. Estaríamos em casa antes mesmo do previsto. O que ninguém sabia na época é que São Paulo se tornaria nossa casa.



Passei pela primeira cirurgia de correção com 4 anos de idade. Parte da minha recuperação se deu no hospital e a outra, na casa dos meus tios. Não tenho uma lembrança muito clara daquele tempo. Dizem que quando passamos por algum tipo de trauma muito jovens, nosso cérebro trata de apagar parte da informação com o passar do tempo. Acho que foi bem isso que aconteceu.

Minha mãe me conta que naquela época, as noites se resumiam em ela acordando com meu choro, por causa da dor que eu sentia. Ela me medicava, a dor passava e eu voltava a dormir pra acordar algumas horas depois, em virtude do remédio que havia perdido o efeito. Minha mãe levantava, me dava dipirona outra vez e assim ia o ciclo se repetindo noite afora.

O baque maior ainda estava por vir: logo após a minha primeira cirurgia, veio a notícia que essa rotina se repetiria por mais 11 vezes, seguidas de intensas sessões de fisioterapia. O sonho de voltar à nossa terra natal se tornou cada vez mais distante.

Meus pais tomaram as providências pra arrumar uma casa pra nós aqui. Afinal, era necessário trazer o restante da família pra cá. Eles arrumaram um pequeno apartamento de apenas um quarto. Desempregado na época, foi o melhor que meu pai pôde arranjar.

Minhas irmãs vieram pra cá no mesmo ano, junto com minha tia Helena, irmã do meu pai, pois sendo todas menores de idade, elas não poderiam viajar sozinhas.

Nosso primeiro ano aqui em São Paulo começou nos desafiando pelo clima: saímos de uma região onde as pessoas usam blusa de manga comprida aos 25 graus de temperatura, pra uma cidade cujo inverno batia os 10 graus. Foi nessa época que me surgiu o fantasma que tive que combater minha vida toda: a asma. Inclusive, um dos momentos mais críticos na minha vida foi quando tive uma crise de asma enquanto me recuperava de uma cirurgia. Como vaso ruim nunca quebra, ainda estou aqui




No centro de reabilitação onde me tratava, logo cuidaram de me colocar na escola que funcionava lá. Foi onde fiz do pré-primário até a quarta série.

Frequentar uma escola dentro de um centro de reabilitação, não tem muita diferença de outra escola qualquer. A não ser pelo fato que durante o dia, alguém vem te buscar na sala de aula pra te levar às sessões de fisioterapia e terapia ocupacional, pra depois te devolver pra professora.

Foi nessa escola que tive contato com outras crianças com históricos semelhantes ao meu. Cada um à sua maneira. Éramos muito unidos, pois sabíamos, desde muito novos, dos desafios que nos eram impostos. Nos respeitávamos muito uns aos outros. Foi um período muito gostoso da minha vida. Éramos umas pragas como qualquer criança, dávamos um trabalhão pros funcionários e voluntários do centro de reabilitação. Mas sempre unidos.




O tempo foi passando. Meu pai arrumou um emprego no Rio de Janeiro que permitiu que alugássemos uma casa maior pra nossa família. Lembro de ver meu pai só aos fins de semana, mas logo ele conseguiu emprego por aqui.

Já minha mãe, o que posso dizer? Todas as vezes que eu voltava do efeito da anestesia, seu rosto era sempre a primeira coisa que eu via.

Me lembro numa ocasião que fiquei internado num hospital que não tinha leito pro acompanhante. O resultado foi minha mãe dormindo numa cadeira de balanço, feita de madeira, que ela deixou ao lado da minha cama. Era uma situação tão desconfortável, que minha irmã Dagmar revezava as noites com a Dona Lourdes pra não ficar puxado demais pras duas. Se eu não estou enganado, essa situação se seguiu durante uma semana.

Foram tempos difíceis, mas necessários. Afinal de contas, fortalezas são construídas com cimento e rochas pesadas, jamais com areia fina.

Entrava ano, saía ano. Vieram duas, três, cinco, nove cirurgias. Cada uma fazia repetir o ciclo que citei no início, mas com certos agravantes: enxertos que não cicatrizavam, infecção hospitalar (por causa de uma dessas, quase dancei feio) e um momentâneo estado de coma. Era como se Deus me chamasse, mas teimoso do jeito que sou, fazia birra: "Nem vem, pode me levar de volta que minha mãe tá me esperando. E ela me mata se eu atrasar!". ´

Vieram as últimas cirurgias. Terminei o ciclo aos 13 anos de idade. Ufa... que alívio!! Parecia algo que jamais terminaria, mas é como costumo a dizer: momentos difíceis servem apenas pra serem superados. Por isso eu digo que hoje, posso tudo. A parte pior já foi e ficou bem distante no tempo.

Ao receber alta da minha última cirurgia, eu fui fazer a então quinta série do primeiro grau num colégio comum. A escola do centro de heabilitação só me garantiria até o primário.

Eu me sentia muito preparado pra tal mudança na minha vida. No decorrer da minha reabilitação, usei prótese superior e inferior. Os braços mecânicos, eu acabei não me adaptando bem. Optei por me virar do meu jeito, criando algumas adaptações caseiras que me supriram as necessidades melhor que próteses superiores.

A grande surpresa veio com a perna mecânica. Minha adaptação foi completa com ela, tanto que comecei andando com muletas. Porém, as cirurgias e fisioterapia que fiz no decorrer da vida, me permitiram aprender a usar a prótese inferior sem precisar delas. Isso pra mim foi crucial, por me permitir uma liberdade maior de movimentos. Já não havia mais nenhuma cirurgia a ser feita, estava pronto pro que desse e viesse.

Nessa época, minha família também começou a crescer. Minhas irmãs casaram e tiveram minhas sobrinhas lindas: Camila, Elisa e por último, a Júlia.


Camila, pra quem não sabe, foi a idealizadora do tão famoso apelido Dudé.

Como todo Eduardo que se preza, eu era chamado de Duda, ou Edu, pela minha família e amigos. Quando a Camila completou um aninho de idade, naquele linguajar de bebê que é simplemente delicioso de se ouvir, ela me chamou de Dudé na frente de umas 30 pessoas que estavam na porta do prédio onde moro até hoje. No dia seguinte, a galera do condomínio tratou de oficializar a marca registrada que me acompanha até então.





Fui fazer a quinta série na primeira escola comum. A primeira de muitas, infelizmente. O problema foi que eu conseguia me adaptar bem à escola, mas a escola é que teimava em querer me enxergar do forma diferente.

As perseguições eram frequentes. E não falo só dos alunos. Existiam os pais dos alunos, indignados com o fato dos filhos deles dividirem a mesma sala de aula com um menino "doente". Havia também os professores que pareciam ter a missão de me mostrar que eu não era bem-vindo naquele lugar.

Muitas vezes, reclamar com a diretoria ajudava a piorar mais ainda a situação. Ou faziam de conta que nada acontecia, ou usavam minhas reclamações pra justificar que eu não tinha condições de estudar naquele colégio.

Meus pais, na época com condições financeiras um pouco melhores, acharam que isso era problema de colégio público. Então, me colocaram num colégio particular, administrado por freiras. Nossa, foi bem pior!

Eu nunca havia passado por um lugar onde a segregação fosse tão explícita. No colégio estadual, eles tentavam esconder um pouquinho, pelo menos.

Só pra se ter idéia, na hora do recreio, as freiras faziam questão que eu ficasse num canto do pátio, com o pretexto de me proteger, pra que nenhum outro garoto me "derrubasse" no chão com uma trombada (pátio de colégio, em hora de recreio, é sempre caótico). Só que nesse mesmo canto onde eu ficava, também eram separados o único aluno negro do colégio e uma outra menina que suspeitava-se ser lésbica. Tudo com a complascência da diretoria.

Comecei nessa época, a criar um certo senso de sobrevivência. Quem quisesse me atingir, que fizesse bem feito, pois o troco viria de forma implacável. Eu também não tinha vontade nenhuma de me sujeitar a um julgamento feito por gente ignorante, que não fazia a menor ideia do que diziam. As brigas eram constantes e as suspensões, também. Minhas suspensões!!

Numa ocasião, um grupo de meninos zombou da minha deficiência e fui pra cima deles. O problema é que estavam em cinco. Fui jogado no chão e chutado na frente de todos. Os moleques só pararam porque a mãe de um aluno interveio a meu favor. Quando levantei, todo sujo e machucado, agarrei um cabo de vassoura que estava no meio de um montante de lixo que se encontrava na calçada, passando meu braço em volta dele e pressionando-o contra o meu corpo. Consegui usá-lo como porrete, acertando as costas e o pescoço de um dos moleques que havia me agredido.

Deixei o garoto na porta do colégio com o pescoço sangrando. Peguei meu material escolar, o resto do meu orgulho e voltei pra casa.

No outro dia, quando minha mãe foi até a diretoria pra exigir esclarecimentos, tudo que faziam questão de ressaltar era a paulada que eu havia acertado nas costas do garoto. Chegaram a alegar que meus machucados foram em virtude do tombo que eu tomei ao tentar agredir os alunos na porta do colégio. Tentei falar com a moça, mãe de aluno, que me ajudou a levantar naquele dia, pra que fosse minha testemunha, mas ela achou melhor não se envolver.

Com 15 anos de idade, um pensamento me veio na cabeça: "da porta da minha casa, pra fora, sou eu e Deus. Não posso mais contar com ninguém". Na cabeça dos meus pais, ficou claro que era hora de mudar de escola. E poderia passar por 1.000 colégios, mas eu completaria meus estudos.

O colégio seguinte foi o São Judas. E foi aonde me encontrei.

Era tratado como igual, cobrado como igual. Sem privilégios, ou injustiças. Com amizades verdadeiras e tão duradouras que até hoje alguns dos alunos daquela época fazem questão de manter contato comigo.

Finalmente, eu soube o que era admirar um professor. Eu descobri o quanto que era legal ir pra diretoria, junto com aquele grupo de amigos inseparáveis, pra tomar uma bronca da diretora por ter aprontado uma daquelas, ao invés de ser chamado pra resolver uma questão de xingamento, ou agressão, que nunca dava em nada.

E foi quando eu estava no Colégio São Judas que tive contato com dois caras extraordinários que me convidaram pra montar uma bandinha de Punk Rock, só pra espantar o tédio das tardes de domingo. A semente havia sido plantada.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

SÃO PAULO, A TERRA DE DOIDO

É muito estranho escrever coisas das quais não me lembro ao certo, ou que só consigo puxar da memória em pequenos fragmentos. Mesmo assim, farei uma tentativa de contar aqui como foi parte da minha infância e a chegada da minha família à São Paulo.

Quase tudo que escrevi aqui vem de uma série de histórias que sempre são contadas pelos meus pais. Histórias que desde que eu era pequeno, simplesmente adoro ouvir. São esses relatos, junto com aquilo que eu consigo lembrar, que vou dividir com todos a partir de agora.


Bom, se é pra começarmos, que seja bem do início mesmo. O dia era 24 de abril. O ano, 1972. Essa foi a data que eu vim ao mundo.
Sou o caçula do Seu Eduardo, com a Dona Lourdes (a dona do café mais famoso do mundo). Antes de mim, vieram Dagmar, Denise e Adriana. Minhas queridas e amadas irmãs.


Somos de uma cidade do interior da Bahia chamada Valença. Uma família como outra qualquer, numa cidade como outra qualquer. E que estava prestes a comemorar a chegada de mais um integrante, se não fosse por um detalhe. Detalhezinho esse que sempre teve peso pra muita gente, menos pra família Martins.

Pelos relatos da minha mãe, eu nasci na única maternidade da cidade que na época era administrada e mantida por freiras. No primeiro segundo que cheguei nesse mundinho de meu Deus, eu já choquei. Afinal, quem me conhece, sabe que eu adoro chegar em grande estílo.

Fui o primeiro caso de má formação congênita múltipla da cidade (não me admira todos terem se assustado tanto, logo de cara). Por esse motivos, as freiras da maternidade se viram num dilema: "Mostramos ele, ou não, para sua mãe? E se o mostrarmos, qual será a reação dela?". Passado um dia após o meu nascimento, e depois de muita insistência da minha mãe, Dona Lourdes finalmente veio a ter contato com seu filho. Pra depois nunca mais desgrudar dele até hoje.


Minha mãe sempre me conta que a reação que ela teve foi "sentir os pés fugirem do chão" ao me ver pela primeira vez. Sinceramente, até hoje nunca entendi com muita clareza o que ela quis dizer (aliás, até entendo. Pois não sou burro de não entender que tenho uma diferençazinha com relação aos outros), mas isso nunca me importou. O que me importa até hoje, foi o que veio depois: amor incondicional.


Fui pra casa com minha família logo após disso. E a vida continuou seguindo seu rumo com meus pais cuidando de criar seus quatro filhos da melhor forma possível. Porém, certas coisas haviam mudado: os passeios comigo na famosa pracinha da cidade, junto com as minhas irmãs, geravam buxixos e olhares de piedade. A reação da minha mãe? Simplesmente, ela nos levou pra passear no dia seguinte. E no outro dia, e no outro também.
"Eu quero ver quem é que vai tirar de mim, o prazer de eu passear com meu filho. Quem quiser olhar, que olhe! Ele é lindo mesmo!", dizia a Dona Lourdes. O que eu acho engraçado até hoje, é que a minha mãe sempre me pergunta o porquê de eu ser tão atrevido. A minha resposta é que meu atrevimento é uma simples questão de DNA, mas enfim.

Certas situações são merecedoras de desprezo. Sabiamente, minha família soube driblar o preconceito simplesmente não dando ouvidos pra ele. Essa foi a primeira lição que aprendi, e a carrego comigo até hoje.

Porém, existem outros fatores que não podiam ser ignorados: meus pais tiveram um menino saudável, assim como eram as 3 meninas que vieram antes. Só que havia um problema: além da má formação congênita, minha perna estava, digamos, na posição errada. Meu pé, só pra se ter uma ideia, estava virado quase 90 graus pra direita. Como seria possível, eu andar assim um dia?

Meu primeiro contato com algum tipo de tratamento se deu quando eu tinha 3 anos de idade, em Salvador, com um médico que acreditou que se meu pé fosse engessado durante um tempo, de acordo com que eu crescesse, ele ficaria na posição dita normal.

E quem disse que eu deixava meu pé engessado por muito tempo? Minha mãe me conta que, ao chegarmos em casa, a primeira coisa que eu fazia era bater o meu pé na parede, até que o gesso quebrasse (eu sei. Sou uma praga, e não é de hoje).

Dando o braço a torcer de que aquele tratamento não era adequado pro meu caso, o mesmo médico de Salvador aconselhou que, se eles quisessem que eu andasse um dia, que o melhor era procurar tratamento num centro de reabilitação, ou em São Paulo, ou em Brasília. Como tinhamos parentes residindo na Terra da Garôa, optamos por São Paulo.

O plano era irmos pra São Paulo, ficarmos na casa de tios meus que nos acolheram de braços abertos, e voltar pra Valença em, no máximo, um ano. Mas havia um caminho bem diferente já traçado no destino da família Martins.



Chegamos pra cá pra esses lados em 1976, quando eu tinha 4 anos, numa árdua viagem de ônibus. Quando passei na minha primeira consulta no centro de reabilitação, veio a surpresa: no meu caso, o tratamento não duraria meses. E sim, anos! Se meus pais optassem em voltar pra Bahia, eu teria que ficar internado aqui.


Eu até hoje tento imaginar o que passou pela cabeça dos meus pais nesse momento. E acho que vou passar o resto da vida apenas imaginando, pois só eles mesmos pra saberem o quanto esse dilema deve ter lhes ardido na alma.
Meu pai, na época, trabalhava num banco. Viviamos numa casa confortável, com minhas irmãs frequentando a escola e todos próximos de nossos familiares. De repente, nos víamos à beira de abandonar uma vida estável, pra encarar a chamada "Terra De Doido", como São Paulo era conhecida na Bahia. Cidade grande, com outros costumes, outra rotina, outro clima. E o mais assustador: ter que começar do zero, num lugar totalmente estranho pra todos nós.

Mas a decisão que meus pais tomaram foi que se as 3 outras filhas deles andavam, o quarto filho também andaria! Se suas 3 outras filhas frequentavam a escola, o quarto filho também frequentaria. Ou seja: se suas 3 filhas tinham o direito de se tornar alguém na vida, o quarto filho também se tornaria! E mesmo com São Paulo parecendo uma fera indomável pra todos nós, a família Martins veio... e venceu! Deus do Céu... e como nós vencemos!




É por essa e muitas razões que eu digo: se você não acredita no poder do Amor, conheça a minha famíla. Tenho certeza que sua opinião vai mudar.







domingo, 15 de março de 2009


E LÁ VAMOS NÓS

Depois de tanto tempo, e atendendo a alguns pedidos, finalmente, tomei coragem de criar meu próprio Blog. Apesar que confesso que minhas atividades virtuais estão cada vez mais caóticas com dois perfis no Orkut, dois perfis no My Space (um meu e outro da minha banda) e uma conta no You Tube. Mesmo assim, achei interessante criar esse espaço com uma outra finalidade, digamos, um pouco mais pessoal. Um lugar onde eu possa dar uma conotação mais humana à minha pessoa do que ando fazendo nesses últimos anos como navegador assíduo da Internet.
De um certo tempo pra cá (e graças a Deus que isso vem acontecendo, pois não tenho o que reclamar) venho passando por um período de exposição às diferentes mídias, coisa que toda e qualquer pessoa que venha a trabalhar com algum tipo de manifestação artística já passou, ou está pra passar. Aquela velha e boa história das experiências que necessitamos passar pra crescermos profissionalmente.
Não sou nenhuma celebridade, estou bem longe disso. Muito, mas muito longe mesmo (aliás, aos leitores de plantão, que fique claro que o verdadeiro motivo desse Blog será descrito no final desse texto. Algo que não tem ligação alguma com massagear meu ego, pois tenho noção que preciso ainda sair da minha condição de mais um correndo atrás do próprio sonho. Em resumo: tenho noção do meu grau de "Zé Ruelice"). Porém, os maravilhosos eventos que vêm acontecendo de um tempo pra cá me deram a oportunidade de conhecer pessoas fantásticas que estão sempre a me perguntar: "de onde você veio?", "como chegou até aqui?", "aonde pretende chegar?" e por aí vai.
Pois bem. Dessa vez, não criei mais esse espaço virtual pra divulgar meu trabalho, minhas aulas, meu estúdio, ou os Easy Rockers. Esse será o espaço pra contar um pouco da minha história e pra prestar tributo a todos os lindos e iluminados personagens que fizeram parte dela. Pois sem eles, não seria ninguém (eu sei, soou clichê. Mas é a mais pura verdade).
Aqui será descrito a história do Eduardo, desde seus 4 anos de idade, até o dia que ele se tornou o Dudé e indo além, pois tudo que será descrito aqui ainda não teve um ponto final. Pelo simples fato de eu ainda viver e estar correndo atrás dos meus objetivos.
Essa história terá as mais variadas aparências. Em alguns casos, terá o formato de uma Odisséia Grega. Em outros casos, vai parecer uma novela mexicana. Alguns capítulos dessa saga terão o formato de uma comédia digna do Jerry Lewis, ou de um drama recheado de altos e baixos.
Em resumo: nesse Blog será contada a história da minha vida. Sem querer ser mais amado, ou odiado, do que já sou. Apesar que já espero a avalanche de críticas que receberei após a publicação desse espaço.
A única razão de eu escrever aqui é muito simples: que todos nós temos histórias pra contar. Sejam elas boas ou ruins. Que nossas vidas se resumem nos fatos dos quais nos tornamos protagonistas e comigo, não poderia ser diferente. Afinal, não fui simplesmente deixado do nada, de uma hora pra outra, nesse mundo de meu Deus, por um disco voador sem um motivo aparente (apesar que tenho convicção que muitos gostam de defender essa tese). Mas minha história foi formada através de uma estrada cheia de pedras, curvas, altos e baixos. Uma estrada construída com muito suor, enfeitada com lágrimas e manchada com sangue. Muitas vezes, com o meu próprio sangue. Mas acima de qualquer coisa, uma história verdadeira.
Então é isso, pessoal. Apertem os cintos, pois a partir de hoje, esse será o espaço onde será escrita a saga do Dudé. Também conhecida como a minha saga. DIVIRTAM-SE.